O Grande Plano para matar Marielle teve truque em geolocalização, consulta ao Serasa e carro guinchado, diz PF

Investigação mostra também que carro que seria usado no crime foi guinchado, o que obrigou os suspeitos a conseguir outro veículo

 

As investigações da Polícia Federal sobre a morte de Marielle Franco e Anderson Gomes mostram que programas de consulta a dados cadastrais no Serasa foram usados para obter informações sobre a vereadora. Consta também que o carro que seria usado no crime foi guinchado e levado a um depósito, o que obrigou os suspeitos a conseguir outro veículo.

O relatório final da corporação tem 479 páginas e aponta que o crime foi motivado pela atuação de Marielle contrária a novos loteamentos situados em áreas de milícia.

Dados cadastrais no Serasa

Segundo o documento, Ronnie Lessa fez levantamentos sobre Marielle em 12 de março de 2018, dois dias antes do crime, em um programa que permite a consulta a dados cadastrais do Serasa Experian.

“[O] serviço [é] concebido para auxiliar comerciantes e financeiras na validação de dados de clientes, mas que, inevitavelmente, é usado por criminosos para levantar dados pessoais de vítimas no planejamento de ações criminosas”, explica o relatório.

“As contas por meio das quais foram realizadas as pesquisas foram vinculadas a Ronnie Lessa na percuciente análise das anotações colhidas em sua residência, na ocasião da deflagração da Operação Lume, pelo fato de sua conta de e-mail estar atrelada à conta de usuário que realizou a pesquisa, assim como deste ter realizado os pagamentos para a manutenção da conta por meio de seus cartões de crédito”, diz a corporação.

A empresa responsável pelo programa afirma que, por meio de informações públicas, consegue fornecer serviços de “consulta completa CPF”, “consulta completa CNPJ”, “endereços por CPF/CNPJ”, “endereço por telefone”, entre outros.

Geolocalização

Outro ponto observado pela investigação é que a geolocalização dos celulares de Élcio de Queiroz e Lessa foi desligada horas antes da emboscada. Segundo a PM, o ex-policial militar tinha o hábito de permanecer conectado até as 23h, mas em 14 de março de 2018, dia do crime, a conexão foi encerrada às 16:23h e só foi retomada após as 22h.

“Além disso, a ausência de conexão foi percebida […] nos dias 1º, 2º, 7 e 14 de fevereiro de 2018, ocasiões em que foi constatada […] que a vereadora estava sendo alvo de vigilância pelos seus algozes.”

A atitude estranha também foi observada no telefone de Élcio. Segundo o relatório, o ex-policial militar chegou na residência de Ronnie Lessa às 16:59 e, “partir de então, não houve deslocamento físico do aparelho até as 22:11h do mesmo dia, o que seria compatível com o interstício que compreende o deslocamento até a Tijuca, a campana na Casa das Pretas, a execução na Rua Joaquim Palhares e o retorno à Barra da Tijuca”, explica o documento.

Pássaros

Uma das ligações encontradas entre o suposto mandante do crime, o deputado federal Chiquinho Brazão, e o sargento reformado da Polícia Militar, Edmilson Macalé, é a criação de pássaros.

O documento da PF mostra que os dois eram entusiastas do hobby, com postagens nas redes sociais, e frequentavam o mesmo lugar, uma chácara localizada em frente ao haras da família Brazão.

Em depoimento, a proprietária do local contou que o marido construiu um local de convivência na propriedade, com churrasqueira e mesas de sinuca. Os interessados na criação dos pássaros passaram a frequentar as instalações.

Um fato ressaltado no documento é que Macalé estava com duas gaiolas de passarinho quando foi surpreendido por tiros em 2021. O sargento reformado resistiu aos disparos e faleceu no local.

Haras Brazão

A propriedade da família também é um ponto central nas investigações. O relatório afirma que os irmãos Brazão apresentaram diversas solicitações ao governo local para que empresas públicas, concessionárias e demais órgãos promovessem melhorias na urbanização de ruas que circundam e dão acesso à propriedade e aos futuros locais de interesse mencionados por Ronnie Lessa em sua delação.

Além disso, a área do haras seria beneficiada pelo do projeto de Lei Complementar de n.º 188/2018, de autoria de Chiquinho Brazão. O texto previa o ordenamento territorial de “162 bairros de todo o Rio de Janeiro, incluídas áreas de preservação ambiental e lotes sequer ocupados, o que seria um incentivo à especulação imobiliária de áreas dominadas por milícias, por exemplo, seria de grande valia para a área de interesse, ante a constatação, por laudo pericial, da inexistência de construções no local”, concluiu a desembargadora Katya Maria de Paula Menezes Monnerat ao considerar o texto inconstitucional.

No seu segundo artigo, a lei complementar estabelecia que “o terreno objeto de parcelamento ou uso e ocupação do solo deverá, para sua regularização, ter frente para logradouro público [uma rua, um endereço de espaço público]”. O relatório deixa claro que a propriedade está localizada de frente à rua Comandante Luiz Souto.

Carro guinchado

A investigação mostrou que o ex-bombeiro Maxwell Simões, conhecido como Suel, e Lessa tinham outro veículo para utilizar não só para o crime contra a vereadora, mas também em outra morte “encomendada”.

Porém, enquanto Lessa testava o armamento, o carro foi guinchado por estacionamento irregular. A PF disse que o veículo não poderia ser recuperado por se tratar de um carro clonado.

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