Em ano de eleição a Vulnerabilidade no DF é a maior de todos os tempos agora conheça histórias de quem luta nas ruas para sobreviver

Crise sanitária provoca aumento de vendedores ambulantes e pedintes, que buscam ajuda e sustento nos semáforos da cidade

Percorrendo as ruas do Distrito Federal é possível encontrar vários vendedores ambulantes em semáforos da capital. Debaixo de sol e chuva, eles lutam para conseguir a renda e garantir o sustento dos filhos. Para ouvir as histórias dessas pessoas, a equipe do Correio percorreu diversos pontos da capital Federal. Uma das pessoas entrevistadas foi Luiz Pereira dos Santos, 63 anos, e morador do Recanto das Emas. Há pouco mais de dois meses, Luiz sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) enquanto vendia amendoins, e até hoje sofre com as sequelas. “Meu médico disse que eu não poderia ir para a rua, mas não tem jeito, preciso garantir a renda”, conta.

Luiz costuma passar o período da tarde na DF-011, que separa o Sudoeste do Parque da Cidade. “Já tinha trabalhado aqui em Brasília como motorista de ônibus. Então, voltei para o DF, vindo de Goiás, tentando conseguir algum emprego na área. Mas não teve jeito, ninguém quer contratar uma pessoa de idade. Precisei começar a vender no semáforo”, afirma. Devido ao AVC, o morador do Recanto colocou uma fita isolante na lente do olho esquerdo do óculos para evitar a visão turva. “Antes eu ficava mais tempo aqui, mas agora sinto muita tonteira e passo mal”, detalha.

Pela manhã, a esposa de Luiz o ajuda a enrolar os amendoins para as vendas. “Meu foco é garantir a educação dos meus filhos. Um deles tem 17 e outro 18 anos. Quando eles tiverem encaminhados, eu quero voltar para Ipameri, em Goiás, onde moro, para sair desse sofrimento. Aqui, eu vivo de aluguel, e só não passo mais dificuldades porque recebo o valor da casa que tenho em Goiás. A minha aposentadoria ainda está em análise do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e, por enquanto, não tenho nem o auxílio-doença”, conta.

Apesar dos desafios, Luiz garante: “A gente é servo de Deus e coloca a nossa confiança Nele. Tem muita gente que ajuda, que compra os amendoins, deixa algum valor acima como doação. Mas é uma vida difícil”, confessa.

Especialista em psicologia social e professora de serviço social, Adelina Moreira destaca que o Estado precisa atuar com políticas públicas para orientar a população sobre os seus direitos. “As ações devem vir do Estado como intervenção dessa realidade. O que precisa para as pessoas saírem de uma situação de vulnerabilidade é o investimento em política social. Essas ações devem proporcionar uma melhora no acesso à renda, inclusão à saúde e à educação. E devem ser políticas intersetoriais, de forma que uma caminhe com a outra. Eu não posso ter elas isoladas, elas devem ser interligadas”, aponta.

Desafios

Próximo à rodoviária do Plano Piloto, o Correio conversou com outro vendedor ambulante. Pedro Henrique Ramos, 33, morador de Samambaia, costuma chegar por volta das 8h em um dos semáforos da região. “A pandemia mudou muito as coisas. A vida não está fácil: nem emprego, nem renda aqui. Estou nesse ponto desde 2016. Comecei vendendo água, mas agora vendo pipoca, que é algo que as pessoas compram com mais facilidade”, aponta.

No entanto, tem dias que, para conseguir o dinheiro necessário, Pedro trabalha mais de 12h. “Na semana passada, eu estava precisando de dinheiro, e cheguei aqui às 7h e fiquei até as 23h20. Agora mesmo, como quero conseguir o dinheiro do aluguel, eu pretendo ficar até tarde, para conseguir o valor e não atrasar o pagamento”, conta. Às 15h, o vendedor só tinha arrecadado R$ 25.

Pai de dois filhos, um de 4 anos outro de 6 meses, Pedro caminha entre os carros com um isopor em mãos que explica a situação de desempregado e o pedido de ajuda. “As coisas estão difíceis porque tudo aumentou, antes a pipoca era mais barata, agora, precisamos vender muito para ter pouco lucro”, afirma.

Na QNG de Taguatinga, próximo ao Batalhão da Polícia Militar, Rose Ferreira, 35, moradora da cidade, também luta pelo bem estar dos filhos. “Tenho duas adolescentes, de 17 e 16 anos, e um menino de 9 anos. Meu foco é dar oportunidade para eles estudarem. Eu não tive essa chance, mas quero que eles tenham futuro, que possam crescer. Sempre pego no pé deles para terem boas notas, se dedicarem e verem a importância da escola”, conta.

Rose trabalha no semáforo há nove anos e, atualmente, vende água e salgadinhos. “Tudo custa R$ 2. Tem gente que ainda dá golpe, pega o produto e diz que vai transferir o Pix, mas vai embora sem fazer transferência. Acontece de tudo”, narra. Para ela, o período da pandemia tem sido um desafio. “Só não passamos mais necessidade porque, graças a Deus, tem gente de bom coração, que fez doações de comida, do grosso. Agora, nessa época de chuva, é outro desafio. Mas precisamos enfrentar. Somos brasileiros, não desistimos nunca”, brinca.

A trabalhadora confessa: “não quero essa realidade para meus filhos, de trabalhar debaixo de sol e chuva o tempo todo. Quero que eles tenham oportunidades, que consigam algo melhor. Agora, tudo está muito difícil devido ao alto preço das coisas. Antes, a água era bem mais barata para a gente comprar, então, conseguíamos ter um lucro melhor. Mas hoje, tudo aumentou”, diz.

Intervenção

Especialista em políticas públicas e agente socioeducativo, Ravan Leão destaca que a Constituição estabelece a liberdade laboral. “Sobretudo no campo artístico não existem limitações para o trabalho laboral. A não ser os casos de trabalho infantil, pois crianças não podem trabalhar em semáforo, e, acima de 16 anos, só podem ter emprego como menor aprendiz”, explica. Ravan destaca que “quando essa situação de trabalho se dá por uma necessidade social, é necessário que haja a intervenção da assistência social, que é um direito das pessoas ter seguridade social.

O agente socioeducativo avalia que o caminho a ser tomado é mostrar que há serviços que podem auxiliar essas pessoas, como sistemas de profissionalizações. “O cenário do DF não tem estatísticas claras de qual o número e o porquê das pessoas estarem nessa situação. Mas percebe-se uma necessidade de oferecer auxílio à sociedade, não de maneira a manter a pessoa na pobreza, mas de promover uma melhor condição socioeconômica”, pontua.

Victor Teixeira, 27, morador do Vicente Pires, também sobrevive com a venda em semáforos do DF. “Já trabalho há cerca de sete anos neste ponto. É muito difícil, porque enfrentamos muito sol e muita chuva. Mas essa foi uma alternativa que encontrei para não ficar desempregado. Mesmo assim, o dinheiro é pouco. Para complementar a renda, aos domingos eu trabalho como zelador em um prédio. Se não fosse isso, a renda não dava”, afirma. O vendedor conta que começou a trabalhar aos 11 anos, ajudando o pai a vender frango. “Aqui, eu vendo pelúcia, frutas, mochilas e carregadores. Logo, vou ter caqui e seriguela”.

Suporte

Questionado, o Governo do Distrito Federal (GDF) afirmou que conta com 28 equipes de abordagem social, e que a profissionalização é uma prática constante nas casas de passagem, conforme ocorrido nos alojamentos provisórios mantidos pelo DF em 2021. “A documentação civil básica é direito de todos os brasileiros e é gratuita a primeira emissão dos seguintes documentos: certidão de nascimento, identidade, CPF, título de eleitor e certidão de óbito. É papel de todas as unidades da assistência social orientar e garantir os meios para que todas as pessoas atendidas tenham os seus documentos”, ressalta.

“As unidades do Centro de Referência da Assistência Social (Cras) procedem os atendimentos para o público em geral. O cidadão que precisar dos serviços do Cras deve entrar em contato pelo disque 156 ou pelo site www.sedes.df.gov.df e fornecer as informações solicitadas”, complementa.

O governo também pondera que há 14 restaurantes comunitários no DF que servem refeições a R$ 1, de segunda a sábado, de 11h às 14h. Além disso, o governo destaca que a Secretaria de Trabalho oferta vários cursos de qualificação profissional para pessoas em situação de vulnerabilidade. “Fábrica Social, Jornada da Mulher Empreendedora, realizado nas regiões administrativas com menor renda per capita, além do Capacitar e do Renova-DF. A secretaria disponibiliza cursos e palestras de recolocação profissional gratuitas para grupos vulneráveis realizados em abrigos, presídios e unidades de internações. A pasta já cadastrou, qualificou e viabilizou a empregabilidade para mais de 700 guardadores e lavadores de veículos”, finaliza.

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