Substâncias usadas em pílulas e cápsulas podem prejudicar o organismo

Estudo tenta compreender melhor reincidência do câncer de mama
14 de março de 2019
GDF vai selecionar 75 professores para produção de livros didáticos
14 de março de 2019

Substâncias usadas em pílulas e cápsulas podem prejudicar o organismo

Pouca gente sabe, mas grande parte das pílulas e cápsulas contém componentes além dos remédios. Esses compostos são conhecidos como ingredientes inativos, que ajudam a estabilizar o fármaco, auxiliam na absorção, melhoram a aparência e o sabor, entre outras funções. Cientistas americanos resolveram investigar melhor os efeitos desses elementos. Em uma análise que envolveu mais de 40 mil drogas, detectaram 38 substâncias que têm associação com o desencadeamento de alergia, como a lactose. Os investigadores acreditam que a descoberta, publicada na revista especializada Science Translational Medicine desta semana, serve como alerta tanto para quem prescreve medicamentos quanto para quem os ingere.

Os pesquisadores vasculharam revistas médicas e encontraram vários estudos descrevendo pacientes que tinham reações alérgicas a ingredientes inativos, como corantes químicos. Em busca de mais dados, se propuseram a descobrir o máximo possível sobre essas substâncias, presentes tanto em medicamentos que exigem receita quanto os de venda livre.  O banco de dados Pillbox, que contém detalhes sobre quase todos os remédios disponíveis nos Estados Unidos (42.052), serviu de fonte principal.

“Em resumo, descobrimos que, em média, 75% da massa de uma pílula ou uma cápsula são absorvidos por ingredientes inativos. Apenas 25% equivalem à droga que o paciente deseja tomar. A combinação do fármaco e do ingrediente inativo é denominada formulação”, conta ao Correio Giovanni Traverso, professor-assistente do Departamento de Engenharia Mecânica do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, em inglês), gastroenterologista do Brigham and Women’s Hospital, e principal autor do estudo.

Em média, as formulações contêm mais de oito ingredientes inativos, mas há composição que pode chegar a 35, conta Traverso. “Surpreendentemente, descobrimos que quase todas as pílulas ou cápsulas disponíveis (92,8%) contêm esses ingredientes”, ressalta. A equipe também detectou que 55% dos medicamentos continham açúcares chamados FODMAP, ligados ao surgimento de problemas digestivos. “Vimos que metade de todos os medicamentos pode conter certos açúcares ou lactose, o que pode causar sintomas gastrointestinais em pacientes que sofrem de síndrome do intestino irritável ou intolerância à lactose grave”, detalha Traverso.

 

Os pesquisadores frisam que os dados corroboram os casos de alergias descrito nos estudos e revistas médicas. “Ingredientes inativos são, geralmente, considerados como não tendo efeitos biológicos, mas alguns deles são cada vez mais reconhecidos como potenciais causadores de efeitos adversos em pacientes sensíveis”, comenta o principal autor do estudo.

A expectativa da equipe é de que as descobertas ajudem a aumentar a conscientização sobre os riscos potenciais que os ingredientes inativos representam a alguns indivíduos. Os investigadores também acreditam que os resultados sensibilizem farmacêuticas a desenvolver formulações alternativas.

“Estamos trabalhando em maneiras de tornar mais fácil para os profissionais de saúde e os pacientes terem acesso a todas as informações associadas a uma pílula prontamente. Também estamos realizando mais estudos para identificar quais ingredientes inativos podem ser os mais seguros”, adianta Traverso. “Isso permitirá conversas com a indústria farmacêutica e as agências legislativas para ajudar na substituição de ingredientes inativos críticos e, assim, criar fórmulas que sejam seguras.”

Também faz parte dos planos da equipe realizar análises com voluntários a fim de estudar a quantidade de lactose e de outros ingredientes inativos que pode gerar sintomas em pessoas com intolerância a essas substâncias. “É preciso haver mais testes clínicos e mais dados disponíveis para que possamos ajudar esses pacientes”, diz Traverso.

Preocupação geral 
Matheus Franco, gastroenterologista do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, avalia que o estudo americano traz dados importantes. “Podem apoiar uma recomendação aos médicos para que fiquem atentos aos componentes presentes nos medicamentos que prescrevem. Porém, esse cuidado também precisa estar presente nas empresas, já que temos muitos medicamentos sem uso controlado, ou seja, comprados livremente, como antitérmicos e antialérgicos. Esses também podem conter essas substâncias e prejudicar pessoas que sofrem com alergias”, diz.

O médico brasileiro ressalta que, apesar de os dados serem de uma análise americana, o alerta serve para outros países. “Aqui no Brasil temos uma lei que diz que é obrigatório escrever na bula quais os elementos presentes no medicamento, mas, muitas vezes, a dosagem não é informada, e esse é um detalhe relevante”, frisa. “Mas vale deixar claro também que essas substâncias são importantes, elas que garantem a estabilidade do produto.”

“Temos uma lei que diz que é obrigatório escrever na bula quais os elementos presentes no medicamento, mas, muitas vezes, a dosagem não é informada, e esse é um detalhe relevante”
Matheus Franco, gastroenterologista do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília

92,8%
Porcentagem dos medicamentos analisados pela equipe americana que continham ingredientes inativos. A equipe teve como principal fonte um banco de dados com 42.052 drogas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *