Escola pública de Ceilândia monta estúdio para produção de videoaulas

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A montagem foi bancada por meio de doação da diretora e vice do Centro de Ensino Médio 10, que funciona provisoriamente no polo industrial da cidade

 

Apesar da suspensão de aulas, a equipe de professores, diretores e orientadores do Centro de Ensino Médio 10 de Ceilândia continuam trabalhando para manter a rotina de estudos dos alunos. Os servidores se uniram para montar um estúdio de gravação de videoaulas na própria escola, que são postadas no YoutubeInstagram e na plataforma Escola em Casa. O projeto ganhou o nome de #CEM10EMCASA.
Segundo Helen Matsunaga, diretora há 15 anos da instituição, desde o início da suspensão, os professores conselheiros de cada turma estavam em contato com os pais dos estudantes para saber sobre a adaptação em casa com aulas oferecidas pela Secretaria de Educação pela televisão.
“Foram ouvidas reclamações de que os estudantes não estavam gostando. Com isso, montamos um grupo com os representantes de turma, ouvimos as queixas e pensamos nessa estratégia”, conta a diretora formada em letras pela Universidade Católica de Brasília (UCB).

Investimento partiu dos servidores

A diretora conversou com os professores interessados e, juntos, começaram a pesquisar sobre como começar o projeto. No início, alguns problemas técnicos impediram a qualidade dos vídeos, como ecos na sala e pouca iluminação. Aos poucos, Helen Matsunaga e o vice-diretor doaram dinheiro para viabilizar a montagem de um estúdio.
“Para a acústica, compramos caixas de ovos, colamos com cola quente no isopor para depois colocar na parede com o tecido TNT por cima. Investimos em iluminação, microfone, etc. Foram dois dias de trabalho”, comenta Helen Matsunaga.
A estrutura da escola já era um problema antes mesmo da pandemia. Em 2016, as atividades do CEM 10, que antes ocorriam na região do Psul, foram transferidas para outro endereço por conta de uma reforma no prédio. De acordo com a diretora, a atual edificação no Setor de Indústrias da cidade não comporta estudantes do ensino médio.

Equipe voluntária

A gravação e edição dos vídeos fica por conta da jovem Nathalia Matsunaga, 21 anos, filha da diretora. A estudante de relações internacionais da UCB trancou o curso quando pandemia se agravou. Com o tempo livre, assim que soube do projeto se ofereceu para ajudar.
Para a jovem, acompanhar o processo de desenvoltura dos professores evoluir e rever as disciplinas do ensino médio tem sido uma experiência enriquecedora. “No meu curso, nós lidamos com pessoas o tempo todo. Então, nessa parte tem sido muito bom. Até mesmo a carga de conhecimento que estou adquirindo”, admite.
“Vejo nos alunos muita maturidade. Eles estão tomando a liderança, divulgando o projeto. Isso é muito importante”, completa.
Os vídeos são gravados nas segundas, quartas e sextas. Nathalia edita e programa a publicação de uma aula de cada disciplina por semana
São 18 professores ministrando as aulas e cinco assistentes nos bastidores. Nem toda a equipe docente aderiu ao projeto. Por isso, a direção convidou ex-educadores do colégio para participar das gravações também.

Participação efetiva

A diretora conta que o projeto tem recebido muitos elogios dos estudantes. “Estão gostando demais. Eles se sentem respeitados, valorizados”, relata a diretora.
Aluna do 2º ano, Ana Luísa Barbosa ficava confusa com as aulas fornecidas pela Secretaria: “Me embolava toda”. Com os vídeos do CEM 10, a estudante conseguiu manter melhor a concentração e com eles, estuda para o Programa de Avaliação Seriada (PAS).
Ana Luísa, que acompanha o projeto desde o início, enxerga vantagem em assistir aos vídeos preparados pelos próprios professores. Para ela, a identificação com os educadores com quem estão acostumados em sala de aula é um estímulo. “Achei incrível. Os professores podem se expressar da mesma forma que eram antes com a gente”, justifica.
A professora de português Regina Neila Pereira Gomes, 41, confirma a forte adesão dos estudantes. “Tenho um grupo de 30 alunos assíduos, que estão estudando, mesmo sem ser obrigatório ou valer nota. E o melhor: eles fazem tudo com dedicação”, diz.
Para ela, alguns fatores impedem que a participação seja ainda ser maior. “Circunstâncias que vão desde o interesse até a disponibilidade financeira”, pontua Regina, formada pela Universidades de Brasília (UnB).
Em março, a educadora começou a enviar atividades via whatsapp antes de o governo disponibilizar a própria plataforma. Ela criou uma sala virtual para manter contato com os estudantes. “Acredito que o conhecimento é o que há de mais importante na vida de todo ser humano.Por isso não concordo com o argumento de que os alunos fiquem sem acesso a ele”, afirma.
Regina confessa que é tímida e, por isso, a tarefa de gravar as aulas tem sido um desafio. No entanto, ela se mantém resiliente para aprender com os erros. “Depois de gravar, assisto, anoto tudo o que pode ser melhorado e, tento aprimorar nas próximas aulas, ou regravo”, conta.
“Acho que todo professor deveria passar por essa experiência. É a primeira vez que estou avaliando de verdade meu trabalho” confessa a professora.

Ação solidária

Além das videoaulas, servidores da escola começaram uma ação solidária para ajudar alunos em situação de vulnerabilidade socioeconômica. A campanha é para arrecadação e doação de cestas básicas. Até o momento, 120 cestas foram entregues.
A escola conseguiu também a doação de celulares, tablets e notebooks para os estudantes que não têm essas ferramentas de estudo. Segundo Helen Matsunaga, os equipamentos eletrônicos recebidos com defeitos foram consertados e entregues aos jovens.

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