O uso obrigatório de máscara no DF começa nesta quinta

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Quem precisar sair de casa na capital deve utilizar a proteção. A multa, no entanto, só começará a ser aplicada em 11 de maios. O importante é não ir para a rua. Sair, só por necessidade

 

 

novo coronavírus tem se provado persistente, fazendo com que algumas orientações médicas fossem se alterando ao longo do tempo para se adequar ao combate. Quando o Brasil ainda não registrava casos da doença, o uso de máscaras, por exemplo, não era recomendado. Com os primeiros registros de transmissão no próprio país, o acessório se tornou essencial para quem apresentasse sintomas. O equipamento de proteção se tornará obrigatório para toda a população do Distrito Federal. Quem descumprir a norma cometerá crime de infração de medida sanitária e pode ser autuado, a partir de 11 de maio, e multado em pelo menos R$ 2 mil.
A medida foi publicada em edição extraordinária do Diário Oficial do Distrito Federal (DODF) há exatamente uma semana, informando que a proteção é necessária “em todos os espaços públicos, vias públicas, equipamentos de transporte público coletivo e estabelecimentos comerciais, industriais e de serviços”. O texto ainda diz que os locais citados devem “impedir a entrada e a permanência de pessoas que não estiverem utilizando máscara”. Desde então, a população tem se preparado para se adequar ao decreto. O produto ganhou prateleiras de mercados, padarias e passou a ser um dos mais vendidos por camelôs, além de ser fabricado de forma caseira em diversos pontos do DF. Mas especialistas ressaltam que ele não deve ser a única proteção contra a Covid-19.
Valeria Paes, infectologista do Hospital Sírio-Libanês de Brasília, lembra que estamos diante de uma nova infecção, que é um agente sem tratamento eficaz comprovado, de fácil transmissão e que pode ser passada de uma pessoa para outra, mesmo em casos em que não há sintomas. “Identificamos que, até antes dos sintomas, o paciente pode estar transmitindo o vírus. Por isso a recomendação do uso universal das máscaras. Se alguma pessoa entre nós for portadora do vírus, a máscara vai reduzir a probabilidade de infecção para quem está próximo”, lembra. Ela complementa que outras orientações anunciadas anteriormente devem continuar sendo hábitos. “O uso da máscara sozinho não garante proteção, precisamos das outras prevenções, como a higienização das mãos, o distanciamento e o isolamento de quem tem sintomas gripais”, detalha.
Vera Lúcia Bassitt, 53 anos, sabe bem disso. A moradora do Cruzeiro Novo afirma que acompanha diariamente as recomendações médicas que são divulgadas e comprou as máscaras antes da obrigatoriedade. “Faz quase 20 dias que adquiri quatro. São reutilizáveis, de TNT e de tecido, que lavo com água e sabão sempre após o uso. Em casa, uso também o álcool em gel, que passo em maçanetas e todos os lugares que são muito tocados”, conta. Mesmo com os cuidados, ela ressalta ainda que não deixa de lado o isolamento. “Só saio de casa para emergências. Até as compras do mercado eu tento fazer por aplicativo, quando consigo encontrar o que quero pelo celular. E quando preciso sair, confesso que tenho medo de ficar perto das pessoas, medo por pegar e passar o vírus. Temos que nos proteger como dá”, comenta.
Vera Lúcia usa máscaras desde o início do mês, mas conta que essa não é a única prevenção necessária(foto: ED ALVES/CB/D.A Press)
Vera Lúcia usa máscaras desde o início do mês, mas conta que essa não é a única prevenção necessária(foto: ED ALVES/CB/D.A Press)
Feitas em casa
As máscaras caseiras de Vera são as mais recomendadas para a população em geral, como informa o Ministério da Saúde. O órgão orienta que esse material é eficiente como uma barreira física e que qualquer cidadão pode produzir em casa. Seguindo as especificações necessárias dos tecidos, muitos brasilienses viram nessa obrigatoriedade do uso de máscaras uma oportunidade para uma renda extra. Guilherme Chagas, 28, diz que na rua em que ele mora várias pessoas começaram a produzir o produto sob encomenda. “Comprei três, porque estou trabalhando ainda, pego ônibus todo dia e acho muito necessário essa proteção. Sempre vou ao serviço usando uma e deixo outra na bolsa, para trocar quando chegar e lavar a primeira que usei”, detalha o cozinheiro.
Guilherme Chagas está atento ao uso correto das máscaras: %u201CSempre vou ao serviço usando uma e deixo outra na bolsa, para trocar quando chegar e lavar a primeira que usei%u201D(foto: ED ALVES/CB/D.A Press)
Guilherme Chagas está atento ao uso correto das máscaras: %u201CSempre vou ao serviço usando uma e deixo outra na bolsa, para trocar quando chegar e lavar a primeira que usei%u201D(foto: ED ALVES/CB/D.A Press)
Também houve quem percebeu a necessidade do uso e decidiu fazer boas ações para ajudar grupos sensíveis. Patrícia Souto, 43, perdeu a filha de 12 anos para um câncer em 2019 e viu na costura um meio de amenizar o luto. “Eu costurava para aliviar a dor, e desenvolvi um vestido que as meninas em tratamento podem usar mesmo com o cateter, para se sentirem lindas. A ideia foi ganhando força e se tornou no projeto Costurando Vidas, que tem como finalidade acolher, cuidar e amar a todos que precisam de algum tipo de ajuda”, conta. Hoje, Patrícia confecciona máscaras para doação. “Doamos cerca de 600 unidades, para caminhoneiros nas BRs, lar de idosos em Taguatinga e em Vicente Pires, UPAs. Agora, estamos preparando uma grande doação para o Hospital da Criança e para a Abrace”, adianta.
Ela ainda vende algumas máscaras para se manter, pois teve que fechar o salão de beleza que trabalha. Pedidos e ajudas podem ser feitos pelo instagram do projeto, @somostodosjulia_bazardajulia. Quem recebe ajudas como essa não esquece. Adriele da Silva, 29, ganhou máscaras doadas para ela, o esposo e o filho, João Guilherme, de 3 anos. O garoto está em tratamento no Hospital da Criança de Brasília (HCB) e a proteção da família é essencial para os deslocamentos. “Não temos a opção de não sair de casa por causa dos exames e do acompanhamento do meu filho, que teve que transplantar o fígado com 9 meses. Moramos longe do hospital e temos medo do vírus, então nos cuidamos sempre com as máscaras”, diz.
O Governo do Distrito Federal (GDF) anunciou uma parceria com a Federação das Indústrias (Fibra-DF) e o Banco de Brasília (BRB) para distribuição de 1 milhão de máscaras reutilizáveis para a população. Porém, o cronograma e os detalhes sobre a distribuição ainda não foram concluídos. Segundo o GDF, eles estão “em fase final de definição e serão publicadas em portaria pela Secretaria de Governo, no DODF”, como informado em nota.

Palavra da especialista

“A medida mais eficaz é ficar em casa”
“A partir de hoje, com o decreto, recomendamos que, quem não tenha máscara, produza uma até que se adquira outras. Em casa, a pessoa pode fazer com pedaço de lençol ou até camisa mesmo. O ideal para a escolha da proteção é a produção com tecido que seja 100% algodão, com pelo menos duas camadas de tecido e que cubra o nariz e a boca. Um dos cuidados que temos que observar é se não há abertura nas laterais. A população em geral não foi formada para esse uso, como os profissionais da saúde, por isso ainda observamos gente com máscara pendurada na orelha, pessoas que deixam no pescoço, quem cobre só a boca e deixa o nariz de fora. Isso não traz proteção e ainda aumenta o risco de contaminação. Só é eficaz se cobrir nariz e boca, sem brechas.
O uso deve ser feito no máximo por três horas, com trocas sempre que a gente perceber que ela está úmida. Quem espirra ou tosse deve substituir imediatamente. A retirada também é importante. É preciso pegar só nas alças, guardar em um saquinho até chegar em casa.
Quando chegar, colocar de molho em solução com água, sabão e água sanitária até 30 minutos. Depois, lavar e colocar para secar. Quando estiver seca, passar o ferro e guardar. Mas é importante ressaltar: não podemos achar que vamos colocar a máscara e estar 100% protegidos. A medida mais eficaz de combate ao coronavírus hoje é ficar em casa.
Para quem precisa sair, veio o decreto para utilização das máscaras. Mas elas não devem ser a única medida. Precisamos usar álcool em gel, manter a distância mínima de um metro de outra pessoa, cuidar da higiene das mãos frequentemente. É necessário uma mudança de hábitos”. Fabiana de Mattos Rodrigues, gerente de risco da Vigilância Sanitária do DF.
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