Estudo alerta sobre uso de chás e fórmulas para emagrecer

Um estudo publicado em janeiro de 2021 pela Clinical Gastroenterology and Hepatology, revista especializada em conteúdo científico, mostrou que mulheres latinas têm apresentado quadros de doenças no fígado e insuficiência renal cada vez mais jovens. A pesquisa indica que os problemas de saúde são desencadeados pelo consumo de substâncias nocivas presentes em chás e fórmulas para emagrecer.

Segundo a revista, “a hepatotoxicidade por suplementos de ervas e dietéticos na América Latina afeta principalmente mulheres jovens, manifesta-se principalmente com lesão hepatocelular e está associada a maior frequência de reexposição acidental”. Dos 367 casos de lesão hepática induzida por drogas (ou DILI – Drug-Induced Liver Injury) estudados, 8% foram atribuídos a fitoterápicos e suplementos dietéticos. Uma tendência crescente na hepatotoxicidade por consumo dessas substâncias foi observada ao longo do tempo (p = 0,04). Camellia sinensis e Garcinia cambogia, usados ​​principalmente para perda de peso, foram os agentes causadores mais frequentemente vinculados. A média de idade foi de 45 anos, sendo 66% dos pacientes do sexo feminino. Os pacientes apresentaram tipicamente lesão hepatocelular (83%) e icterícia (66%). Cinco casos (17%) desenvolveram insuficiência hepática aguda. Em comparação com medicamentos convencionais e até esteroides anabolizantes, os casos de hepatotoxicidade por consumo de fitoterápicos e suplementos dietéticos tiveram os níveis mais altos de aspartato e alanina transaminase, enzimas encontraras no fígado, quando há lesão de células ou infecção no órgão. 

Oferta de chás para emagrecer na Internet

O consumo de substâncias emagrecedoras tem se tornado cada vez mais frequente, estimulado pela publicidade descontrolada de chás e fórmulas sem comprovação científica em sites e redes sociais. Seja por quem luta contra a obesidade ou, até mesmo, por quem não tem sobrepeso, mas que almeja perder medidas para alcançar um corpo perfeito, a oferta de chás emagrecedores ou fórmulas para emagrecer, aumentou nos últimos meses. Basta navegar pela internet para ser impactado por anúncios de medicamentos que prometem resolver o excesso de medidas corporais, como comenta a dona de casa paulistana Rosa Medeiros, que faz tratamento contra a obesidade. Rosa revela “nunca ter visto tanta propaganda de chás para emagrecer como agora”. A dona de casa conta que três em cada dez anúncios que aparecem em seu perfil do Instagram oferecem algum tipo de solução para perda de peso.

Riscos do uso de soluções, fórmulas e chás de emagrecimento

Muitas fórmulas e ervas ditas como naturais possuem substâncias inflamatórias – ou mesmo tóxicas – que podem trazer inúmeros riscos à saúde. “Criou-se um ideal estético que não condiz com a realidade. A obsessão pelo corpo extremamente magro e sem marcas, leva muitas pessoas a buscar a redução de peso por fins estéticos, colocando a saúde em risco por meio de escolhas inapropriadas e, muitas vezes, prejudiciais ao organismo”, comenta a Dra. Margaretth Arruda, nutricionista e cofundadora do Instituto de Medicina Sallet, especializado no tratamento da obesidade e das doenças metabólicas.

Os crescentes casos de atendimentos ambulatoriais de pessoas apresentando problemas hepáticos causados pelo uso indiscriminado de inibidores de apetite, é um exemplo sintomático desse ideal estabelecido. A Dra. Margaretth Arruda conta que, motivadas pelo aumento de casos observados em seu consultório, as questões associadas aos perigos do uso de medicamentos e outras soluções de emagrecimento sem prescrição ganharam destaque nas discussões entre os profissionais da equipe transdisciplinar do Instituto. “Por maior que seja o desejo por obter um corpo perfeito ou necessidade de se perder peso, é fundamental não abrir mão da segurança e do apoio especializado ao longo desse processo. Os riscos à saúde são altos, podendo ser até fatais”, comenta a nutricionista.

A especialista destaca que, mesmo chás e outros produtos anunciados como naturais, podem apresentar riscos importantes à saúde, sobretudo por combinarem uma ampla gama de ervas e ingredientes que podem gerar danos aos órgãos. “Nossos órgãos vitais, tais como fígado, coração e rins, podem sofrer degradações importantes, desencadeadas por substâncias tóxicas que, muitas vezes, são utilizadas nessas ‘fórmulas’, shakes, chás e suplementos de emagrecimento. Isso pode levar a quadros de hepatite fulminante, infarto e arritmia cardíaca, além de insuficiência renal”, alerta.

A especialista destaca que os produtos vendidos sem receita pela internet e que, muitas vezes, não possuem autorização para serem comercializados, podem conter substâncias que nem mesmo constam no rótulo ou nos materiais de divulgação. “O mais breve consumo de substâncias nocivas pode gerar prejuízos que exigem meses até a completa recuperação”, comenta a profissional, citando a conclusão do estudo promovido pelo periódico.

Aumento de casos de obesidade no Brasil

Nos últimos anos, houve aumento da prevalência dessa condição que, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acomete 1/4 das pessoas com mais de 18 anos. Ainda de acordo com a entidade, mais de 60% dos brasileiros apresentam excesso de peso. O excesso de exposição e oferta de produtos na Internet é um dos fatores que pode estar por trás do aumento do consumo indiscriminado de remédios, shakes e chás por pessoas saudáveis que esperam emagrecer rapidamente. Recentemente, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) proibiu a venda de mais de 140 produtos para emagrecer. A decisão foi tomada em razão da morte de uma enfermeira ocorrida em fevereiro deste ano, decorrente de uma hepatite fulminante causada por substâncias encontradas em cápsulas emagrecedoras que a vítima consumia sem orientação médica.

“É preciso colocar a saúde como uma prioridade e ter consciência de que o processo de emagrecimento e a perda de peso devem ser integralmente orientadas e acompanhadas por especialistas, que indicarão o tratamento ideal para cada pessoa, considerando suas reais necessidades, impactos à saúde, histórico e outros fatores que ajudarão a garantir resultados de uma forma segura e preservando a vida”, conclui a nutricionista.

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