O legado do Mundial da Copa do Mundo de 2014 que ficou largado e totalmente inacabado em Brasília

Há obras em Brasília relacionadas ao Mundial de 2014 que sequer foram concluídas. Muitas foram esquecidas. As principais e mostra como ficaram, 10 anos após a competição. Ações de mobilidade urbana estão entre as que não chegaram ao fim

 

Ser cidade-sede da Copa do Mundo de 2014 previa contrapartidas com benfeitorias estruturais que melhorariam a vida de moradores da capital do país. Em parte, ocorreram. No entanto, houve projetos previstos na cidade, devido ao Mundial de Futebol, que ficaram no papel. Outros só foram realizados anos após o campeonato. As principais obras e mapeou a situação atual. Ações voltadas para mobilidade urbana —programadas para estarem prontas à época do torneio — são as que mais fazem falta, segundo especialistas.

Entre as promessas de infraestrutura para a disputa da Fifa, e que não foram entregues até hoje, está o sistema do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) ao longo da avenida W3. A obra chegou a ser iniciado, mas foi embargada pela Justiça por suspeitas de irregularidades no processo de licitação. Sua implantação foi retomada em 2019. Houve audiências e consultas públicas sobre o tema, que, atualmente, está sob análise do Tribunal de Contas do Distrito Federal. Está prevista a construção de 24 estações ao longo de 16,3 km de vias, pelo Plano Piloto, passando pelas Asa Sul e Norte. Na segunda fase, com extensão de 6,1 km, será conectado ao Aeroporto JK e contará com mais 4 estações.

“Cabe resgatar a racionalidade e viabilidade de determinadas promessas, como o VLT. É parte de uma estrutura de mobilidade necessária ao futuro da capital, que precisa investir com mais vontade nesse campo”, comentou Frederico Flósculo, urbanista e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de Brasília (UnB).

Dívida

Outra falta sentida foi o aumento e a revitalização do metrô do Distrito Federal. Isso incluiria a compra de trens e a finalização de estações. De acordo com os gestores do Metrô-DF, o processo segue em tramitação e análise no Ministério das Cidades, aguardando aprovação para dar andamento do que se necessita adquirir e construir, além da liberação de recursos. Mas algumas frentes estão avançando.

Por exemplo, que a conclusão da estação Onoyama deverá entrar em processo de licitação ainda em 2024. E também se confirmou que a expansão das prestação do serviço aos moradores de Samambaia teve o contrato assinado. Isso permitiu a elaboração dos projetos técnicos para iniciar as obras. Situação semelhante para a ampliação à Ceilândia, objetivo que teve autorizada a licitação para esse trabalho.

Paisagismo

Outra promessa para a Copa de 2014 era a entrega do Jardim Burle Marx. Localizado entre a Torre de TV e a Rodoviária do Plano Piloto, só foi inaugurado em setembro de 2023. A obra, que havia sido iniciada e paralisada em 2016, foi executada com o investimento obtido junto ao sistema bancário e com apoio da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) e da Companhia Energética de Brasília (CEB).

Junto ao jardim, havia sido projetado que os arredores do estádio Mané Garrincha — palco de jogos do Mundial 2014 — ganhariam um projeto paisagístico, com jardins, fontes, passagem subterrânea até ao Centro de Convenções Ulysses Guimarães e outro túnel entre o Parque da Cidade e o Clube do Choro. Nada dessa ação paralela saiu do papel.

Entregas

A principal obra que a Copa do Mundo trouxe a Brasília foi o Estádio Mané Garrincha. O projeto custou aos cofres públicos R$ 1,5 bilhão. Dos espaços semelhantes construídos ou reformados para o evento no Brasil, o da capital federal foi o mais caro. O Mané, aliás, é um dos estádios mais caros do planeta, de acordo com a Fifa. O projeto, no entanto, despertou suspeitas de irregularidades e denúncias de corrupção que envolveram autoridades regionais e empreiteiras.

Fora o campo, entre outros compromissos atendidos a tempo para a Copa do Mundo de 2014, e que ficaram como legado para os brasilienses, está a revitalização da Torre de TV. que custou R$ 12 milhões. O piso térreo foi reformado houve troca dos três elevadores, a instalação de escadas rolantes que permitem conexão com Feira de Artesanato, entre outras providências. A intervenção custou R$ 12 milhões. No entanto, atualmente, as escadas rolantes não funcionam, deixando na mão pessoas com mobilidade reduzida.

Afastado da área central do Plano Piloto, mas contemplado com R$ 20 milhões, está o viaduto do fim da W3 Sul. Foi finalizado dentro do prazo previsto, aliviando o trânsito, especialmente no trecho entre o Setor Hospitalar Sul e o Setor Policial, onde costumava haver engarrafamentos em certos períodos do dia.

A construção do viaduto integrava a implantação do VLT, e constava na Matriz de Responsabilidades da Copa. Essa ampla lista de ações em infraestrutura incluía o balão Sarah Kubitschek, compromisso que foi gerido pelo Departamento de Estradas de Rodagem no Distrito Federal, e que custou R$ 43,4 milhões.

A obra de readequação da DF-047 também foi prevista para matriz. A via foi ampliada em 4,5 km e ganhou o túnel Engenheiro Dalmo Rebello — que dá acesso ao aeroporto — graças ao investimento de R$ 43,4 milhões.

Carência

O integrante do Conselho de Transporte Público do DF e do Conselho de Trânsito do DF, Wesley Ferro, avaliou que a região perdeu uma oportunidade de ter, com as obras da Copa, melhorias no sistema de transporte público local. Sua análise se baseou no Plano Diretor de Transporte Urbano e Mobilidade (PDTU). “No campo da mobilidade urbana, não tivemos muitas mudanças. O principal legado é o estádio, onde foi injetado um volume expressivo de recursos”, lamentou.

“Em relação ao sistema de transporte público, o PDTU prevê a implementação de um sistema tronco-alimentado. Isso permitiria termos veículos de maior capacidade (de transporte de usuários), como ônibus articulados, circulando por corredores do DF. Se esse modelo fosse implementado, não teríamos essa quantidade densa de ônibus e veículos nas ruas. As viagens seriam mais rápidas, feitas por corredores exclusivos, em que o tempo de viagem seria reduzido e o próprio custo do sistema cairia”, observou Ferro.

Obras

Veja as obras realizadas e concluídas entre 2010 e 2014 para a Copa das Confederações (2013) e para a Copa do Mundo (2014):

» Ciclovias do Plano Piloto;

» Revitalização da torre de TV;

» Asfalto novo no Plano Piloto;

» Novo Mané Garrincha;

» Túnel do aeroporto (no balão Sarah Kubitschek);

» Ampliação do aeroporto de Brasília (obra Federal);

» Substituição da iluminação pública em diversos pontos do DF, inclusive do eixo monumental;

» Construção de calçadas para mobilidade urbana;

» BRT que liga o Plano Piloto ao Gama.

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