Ondas de calor extremo são um “suicídio coletivo”, diz secretário da ONU

Declaração do secretário-geral António Guterres coincide com o auge da segunda onda de calor em menos de um mês na Europa. Relatório alerta que metade do território do continente corre o risco de seca

A onda de temperaturas extremas e incêndios florestais que assola a Europa são um “suicídio coletivo”, classificou o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres. Reunido com ministros do meio ambiente de 40 países, incluindo do Brasil, ele destacou que as políticas de contenção de mudanças climáticas estão na contramão do que o planeta necessita. “Metade da humanidade está na zona de perigo de inundações, secas, tempestades extremas e incêndios. Nenhuma nação está imune. No entanto, continuamos a alimentar nosso vício em combustíveis fósseis.” A reunião, na Alemanha, é um preparatório para a conferência do clima, que acontece em novembro, no Egito.

Outro grave alerta foi dado pela Comissão Europeia. Em um dia de temperaturas recordes no continente, especialistas assinalaram que quase metade do território da União Europeia (UE), formada por 27 países, está “em risco” de sofrer com a seca após uma ausência prolongada de chuvas. Cerca de 46% da superfície está exposto a níveis de seca considerados de risco, o que significa um déficit importante de umidade do solo, indicou o Centro Comum de Pesquisa (JRC, na sigla em inglês) em seu relatório de julho. Aproximadamente 11% está em nível de alerta, com a vegetação e os cultivos debilitados pela falta de água, acrescentou o documento.

“França, Romênia, Espanha, Portugal e Itália provavelmente terão que enfrentar uma queda da produtividade dos cultivos”, principalmente dos cereais, gerada pelo “estresse hídrico e térmico”, destacou o Executivo da UE. Por sua vez, Alemanha, Polônia, Hungria, Eslovênia e Croácia também foram afetadas, enquanto a bacia do Pó na Itália “enfrenta o nível mais alto de seca severa” na UE, devido a uma “seca intensa” declarada em cinco regiões italianas, afirmou a Comissão Europeia.

Ontem, França e Reino Unido enfrentaram temperaturas extremas: 42ºC em Nantes, e 38,1ºC em Suffolk, na Inglaterra. Registrando incêndios florestais, Portugal, Espanha e Itália também sofrem com as altas temperaturas neste início de verão no Hemisfério Norte. A onda de calor é a segunda registrada em menos de um mês na Europa, em plena campanha turística de verão. Para os cientistas, a multiplicação desses fenômenos é consequência direta das mudanças climáticas.

“Espera-se um calor especialmente intenso, não uma típica onda de calor de verão”, explicou à agência de notícias France Presse François Gourand, meteorologista da Météo France. O sudoeste francês poderá viver “um apocalipse de calor”, com até 44ºC, destacou o cientista.

Saara

Do outro lado do Canal da Mancha, o Reino Unido também se preparava para recordes de calor. O termômetro poderá superar os 40ºC, pela primeira vez na história. O atual recorde são os 38,7ºC de 25 de julho de 2019. “Mais quente que o Saara”, definiu o tabloide The Sun. Holanda e Bélgica decretaram “alerta laranja”, estimando temperaturas próximas aos 40ºC, mas sem expectativa de recordes de calor. As autoridades britânicas decretaram o nível máximo de alerta 4, devido ao risco que até mesmo pessoas jovens e saudáveis correm.

Na última semana, o calor extremo causou pelo menos mil mortes na Espanha e Portugal. Autoridades espanholas estimam 510 óbitos entre os 10 a 15 deste mês. No domingo, os termômetros registraram 42 ºC em regiões do norte do país, como o País Basco e Navarra. Um homem de 50 anos morreu devido ao calor em Torrejón de Ardoz, nos arredores de Madri. Um dia antes, um funcionário de limpeza de 60 anos morreu na capital pelo mesmo motivo, segundo as autoridades locais.

Em Portugal, segundo os serviços de saúde, ocorreram 523 mortes nos últimos 7 dias. Apenas entre os dias 7 e 13, mostram os levantamentos oficiais, foram registrados 238 óbitos em razão do calor extremo.

Fogo

Os incêndios se multiplicam por vários países, também causando vítimas. Segundo o presidente de governo da Espanha, Pedro Sánchez, as chamas arrasaram 70 mil hectares desde o início do ano. “Quase o dobro da média da última década”, comparou. Os bombeiros estão há dias tentando apagar uma série de incêndios.

Em Portugal, cerca de 800 bombeiros continuavam lutando ontem contra quatro incêndios ativos no centro e no norte, mas a Defesa Civil estimou que a situação era favorável graças a uma queda da temperatura. Em 10 dias, o fogo causou a morte de duas pessoas.

Na França, dois grandes incêndios queimaram há uma semana 14 mil hectares de vegetação no sudoeste do país, próximo a Bordeaux, e forçaram a retirada de mais de 10 mil pessoas da região ontem.

Os cientistas consideram que a multiplicação das ondas de calor é uma consequência direta do aquecimento do planeta. As emissões de gases de efeito estufa seriam responsáveis pelo aumento de sua intensidade, duração e frequência.

“A mudança climática mata. Mata pessoas. Mata também nosso ecossistema”, disse o presidente de governo da Espanha, durante uma visita a uma região afetada por incêndios em Extremadura (oeste).

  • Poça no leito quase seco do Rio Reno, em Colônia, na Alemanha
    Poça no leito quase seco do Rio Reno, em Colônia, na AlemanhaFoto: AFP
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