Do vício ao crime: No DF, crack é problema social e de polícia

Sem ações efetivas do GDF, usuários e traficantes ocupam espaços públicos em várias regiões. O Correio percorreu alguns pontos da capital e flagrou a venda de uma das drogas mais devastadoras e agressivas à saúde

A circulação intensa de trabalhadores, estudantes, idosos ou crianças em um dos pontos mais conhecidos e movimentados do Distrito Federal não intimida a ação de traficantes e usuários de drogas que, em plena luz do dia, se reúnem na Praça do Relógio, em Taguatinga, para vender e consumir crack, uma das drogas mais viciantes e com maior potencial destrutivo. Sem ter como sustentar o vício, dependentes químicos entram para o mundo do crime: matam, furtam e roubam. Para os pedestres, restam o medo e a sensação de insegurança.

  • O consumo de droga em plena luz do dia é comum na Rodoviária do Plano Piloto a poucos quilômetros do Palácio do BuritiMinervino Júnior/CB/D.A.Press

No centro de Brasília não é diferente, especialmente na Rodoviária do Plano Piloto, onde transitam cerca de 800 mil pessoas por dia. Em meio aos camelôs e comerciantes, traficantes aproveitam para vender as drogas sem se preocupar com os poucos policiais que fazem ronda ostensiva no local. O mesmo se repete nas quadras do Setor Comercial Sul (SCS) e no Conic. Em vídeos obtidos pela reportagem, é possível flagrar a venda de drogas na Quadra 5 à luz do dia.

Dados obtidos por meio da Polícia Civil (PCDF) mostram que, de janeiro a 22 de junho deste ano, as forças de segurança apreenderam mais de 131kg de crack em toda a capital. O número ultrapassa o total de apreensões de 2018, 2019 e 2021 (veja Apreensões).

Sensação de insegurança, aumento nos índices de criminalidade são alguns dos fatores causados com o aumento da venda e consumo do crack e outras drogas, segundo o especialista em segurança pública Leonardo Sant’Anna. “Temos impacto no aumento da criminalidade, especialmente nos pequenos furtos e roubos. Não estamos falando de um tipo de droga que tenha consumo mais elitizado. O crack é a droga mais barata, mais rasa e que mais impacta as pessoas que estão num nível de degradação grande. E, para suprir essa falta, essas pessoas recorrem a esse tipo de crime. Além disso, também temos impacto na saúde pública, porque tratar dependente químico não é um tratamento simples, fácil, nem barato”, destacou.

Em uma cadeira de rodas, um homem magro e de casaco se posiciona em um dos bancos da praça do Relógio, em Taguatinga Centro. O relógio marca exatamente 16h30 de uma segunda-feira, horário de intenso tráfego: são pessoas desembarcando de ônibus e de metrô, crianças saindo de escolas, comerciantes vendendo comidas, doces ou água no local e até turistas. Não demora muito para que outros rapazes se aproximem do cadeirante. Sem qualquer receio, o traficante pega algo dentro da mochila, entrega nas mãos dos compradores e recebe o dinheiro.

O objeto “misterioso” logo é revelado. Com uma latinha de refrigerante, um usuário queima a pedra de crack e consome a droga num banco próximo. Quem passa pelo local não percebe ou finge não ver a movimentação. Um dos flanelinhas que olham carros em um estacionamento próximo é um dos clientes do cadeirante. De colete verde fluorescente com a logomarca do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-DF), o rapaz se aproxima discretamente e olha para todos os lados antes de, com uma das mãos,  entregar o dinheiro ao traficante e, em seguida, pegar a droga.

Sem se identificar, uma jovem, de 23 anos, conta que mora próximo à Praça do Relógio e relata que a situação é frequente. “Meio que já até me acostumei. Passo por aqui e vejo muitos usuários usando crack na cara dura. Para a sociedade, é uma situação complicada. Eu, por exemplo, não passo por aqui depois das 20h nunca”, desabafa.

Comandante do 8º Batalhão da PMDF de Ceilândia, o major Ricardo Kotama explica como funciona o trabalho dos policiais militares no combate ao tráfico, especialmente do crack. “Hoje, temos um quadro complexo, por exemplo, em Ceilândia por causa do crack. É o furto de cabos, de tampas de bueiro, de roda, interior de veículo e, principalmente, de celular. O celular é muito fácil de comercializar. O crack é uma droga barata e, aqui (Ceilândia), chega a ser mais barata do que no Plano Piloto, por exemplo”, frisou.

Além da questão da impunidade, o major ressalta que tratar a dependência química vai além do encarceramento. “Uma pessoa que troca a comida por drogas é uma pessoa doente. O estado precisa trabalhar em conjunto. E, quando falo em estado, trago aqui o Ministério Público, o Judiciário, as secretarias sociais e população”, pontua.

Perto de igreja

A menos de 8km da Praça do Relógio, a reportagem do Correio flagrou situações semelhantes. Na QNN 3, próximo à Paróquia Santíssima Trindade, um casal de usuários se escondia em um terreno descampado para fumar crack. A poucos metros, um grupo de três homens e uma mulher negociava a venda de drogas em uma calçada próximo a um parque infantil, no horário em que crianças brincavam.

A Feira do Rolo — conhecida por vender produtos ilícitos — também costuma ser ponto de venda de drogas, em Ceilândia. Em um beco, inúmeros homens e mulheres se aglomeravam para consumir e comprar os entorpecentes.

Dados da Divisão de Análise Técnica e Estatística da PCDF (Date) revelam que, nos cinco primeiros meses deste ano, o crack foi a terceira droga mais apreendida na capital (131,126kg), ficando atrás somente da maconha (2.671,429kg) e da cocaína (157,736kg). O número total de apreensões de crack deste ano é praticamente o mesmo ao somar o total dos anos de 2018 e 2019 (76,571kg e 58,605kg, respectivamente).

O levantamento também traz a lista das regiões com o maior número de apreensões separadas por tipos de drogas. Com relação ao crack, Ceilândia sai em disparada, com 121.946,62g. Em seguida, aparece o Gama (42.646,79g); e Planaltina (37.133,30g). “O crack é muito difundido em centros urbanos e é consumido, em sua maioria, por pessoas de baixo poder aquisitivo. Possui um alto poder de destruição e atua diretamente no sistema nervoso central, se tornando uma substância altamente viciante”, explica o delegado à frente da Coordenação de Repressão às Drogas (Cord), Rogério Henrique Oliveira.

A entrada no mundo do crime para sustentar o vício reflete nos números. Em maio, a Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF) registrou 1.465 roubos a pedestres no DF, uma queda de 64 casos em relação a abril. Ainda em maio, a capital teve 722 notificações de furtos em veículos, um aumento de 32 ocorrências comparado ao mês anterior.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Saúde responsável pelos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) esclareceu que os dados de atendimentos nesses centros não são divididos de acordo com o diagnóstico do usuário, mas, sim, com a modalidade de procedimento, que pode ser atendimento individual, em grupo ou acolhimento. Dados da pasta mostram que, só nos primeiros meses deste ano, as três Caps do DF totalizaram 59 mil atendimentos. No ano passado, o número foi de 176 mil atendimentos. Em 2020, 156 mil; em 2019, 150 mil; e, em 2018, 229 mil atendimentos.

Apreensões de crack no DF

2018 76,571kg

2019 58,605kg

2020 137,058

2021 121,703kg

2022 (janeiro a 22 de junho): 131,126kg

Estimativa de valores de crack apreendido pela Polícia Civil do DF entre 2019 e 2021

2019 R$ 257. 416

2020 R$ 2.278.720,94

2021 R$ 599.489,580

Onde buscar tratamento para o vício no crack?

Qualquer usuário pode procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para ser examinado e encaminhado para tratamento

Os usuários também podem procurar os Caps

FRASE

“O crack é a droga mais barata, mais rasa e que mais impacta as pessoas que estão num nível de degradação grande”

Leonardo Sant’Anna, especialista de segurança pública

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