“Desglobalização”: uma tendência para a indústria de alimentos e bebidas?

 

 

*Por Maurício Godinho

 

O conceito presente na terminologia VUCA — do inglês volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade — criada e utilizada no período pós-guerra, na década de 1990, parece ter voltado com toda força desde o início da pandemia da covid-19, que completou dois anos em março. Novas instabilidades e incertezas fazem parte da realidade atual, tais como o aumento do preço do barril do petróleo, a escassez de diversos insumos, como embalagens no mercado global e falta de vidro para bebidas no Brasil. Esses fatores levantam questionamentos sobre disponibilidade e, por conseguinte, provável aumento considerável nos preços futuros de trigo, milho e até de fertilizantes. A indústria de alimentos e bebidas, então, se vê forçada a repensar a globalização alcançada nas últimas décadas como uma questão de sobrevivência para o futuro próximo.

 

O estudo da KPMG “Consumidores e a Nova Realidade” analisou as respostas de mais de 12 mil entrevistados em todo o mundo, incluindo o Brasil, e apontou que o consumidor está mais seletivo e rigoroso nas escolhas de marcas, privilegiando aquelas cujos valores se alinham às expectativas pessoais. Entre as três maiores tendências — representando 41% dos respondentes — está o atributo “confiança na marca”. A escolha de marcas pelo consumidor demonstra atenção a atributos correlacionados a práticas sustentáveis e de menor impacto ao meio-ambiente e à sociedade, tais como uma maior atenção às marcas que desenvolvem e priorizam comunidades locais versus globais.

 

Assim sendo, grandes marcas de alimentos de bebidas passaram a se deparar com consumidores cada vez mais conscientes sobre questões sociais, de meio-ambiente e de governança, resistentes às cadeias de suprimentos globais. Além disto, têm também se deparado com o aumento consecutivo de projeção de inflação para matérias-primas importantes além do impacto no transporte desses suprimentos em função do considerável aumento do valor do barril de petróleo no mercado internacional. Essas limitações impostas para transporte e logística já estão afetando as perspectivas de ampliação de preços para o consumidor final, representando um importante limite de acesso a diversos itens no mundo todo.

 

Com o aumento dos preços e menor disponibilidade de matérias-primas essenciais, a migração de recursos e insumos disponíveis localmente, como descrito em seguida, para o acesso privilegiado de recursos disponíveis localmente tende a se transformar em, praticamente, uma questão de sobrevivência para a indústria de alimentos e bebidas no mundo todo. No Brasil, por exemplo, esse setor já sofria com pressões diversas. Agora, provavelmente, passará pela adaptação de ingredientes para tentar amenizar o aumento de custos e acesso aos demais itens, fortalecendo-se o sortimento às comunidades locais ou mais próximas. O fato é que grande parte das matérias-primas utilizadas pela indústria é considerada uma commodity e segue preços ditados pelo mercado.

 

Porém, já sabemos que os impactos ao planeta parecem ser mitigados quando uma indústria é capaz de reduzir transportes de longa distância e de privilegiar comunidades locais. Nesses casos, as práticas de ESG (do inglês meio ambiente, social e governança) parecem estar em sintonia com opções locais versus globais, quando pensamos em menor impacto ao meio ambiente (redução de emissão de gases de efeito estufa ao reduzir deslocamentos, por exemplo), além de questões sociais como geração de renda e desenvolvimento local, dentre muitas outras.

 

Além disso, já podemos observar iniciativas mais sustentáveis da indústria, tais como, produtos que têm origem nas plantas (plant-based) e que utilizam inteligência artificial e análise de dados sensoriais para imitar ingredientes de base animal, com disponibilidade local privilegiando essas ofertas. Sabe-se que um ingrediente a base de plantas locais quando utilizado para substituir um insumo commoditizado e de origem animal, muitas vezes proveniente de cadeias de suprimento globais, são menos poluentes, mais saudáveis além de proteger a fauna e flora de importantes ecossistemas — geralmente a prática “plant-based” privilegia insumos oriundos de agricultura regenerativa e ecologicamente responsáveis.

 

Consumidores estão cada vez mais atentos às questões globais e aos posicionamentos das marcas. As cadeias de suprimento voláteis e desafios da agenda ESG parecem forçar uma reinvenção das indústrias de alimentos e bebidas para uma nova realidade, mesmo que ela ainda esteja em construção, após as notícias recentes deste mundo VUCA.

 

As indústrias capazes de revisitar internamente portfólios de produtos e marcas, adaptando a cadeia de suprimentos e de valor às demandas das comunidades e ofertas locais, estarão em posição de, possivelmente, reduzir o impacto ao meio ambiente e à sociedade. Elas terão, provavelmente, vantagens competitivas e importantes, sob o ponto de vista de proposta de marca, bem como mitigação de custos e melhoria de margens de lucro, possibilitando um melhor posicionamento de preços aos consumidores finais no mercado em que atuam.

 

A “desglobalização” mostra-se uma tendência cada vez mais próxima da realidade, graças às revisões na cadeia de suprimentos e de valor parecem se tornar um imperativo para a sobrevivência futura de diversos negócios de alimentos e bebidas no Brasil e no mundo. Fato que a globalização de muitos itens continuará existindo para poder suprir determinados mercados consumidores que não os produzem, porém, cada vez mais, marcas que privilegiam comunidades locais terão a preferência de consumidores de novas gerações.

 

*Maurício Godinho é sócio-líder do segmento de Alimentos e Bebidas da KPMG no Brasil.


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