“Escola democrática” conquista municípios e capitais do país. Entenda

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O método dá voz aos alunos por meio de assembleias, rodas de conversa, votações e outras consultas às crianças

 

Já imaginou uma escola em que crianças a partir dos 2 anos já decidem que atividade vão fazer, qual será a hora da brincadeira e do lanche? Na pequena Guaxupé, no sudoeste de Minas Gerais, “a indisciplina ficou no passado, graças à escuta ativa dos estudantes dos ensinos primário e fundamental”, é o que diz Érica de Cássia Gonçalves, coordenadora do Ensino Fundamental da Secretaria de Educação do município.

O método adotado em Guaxupé tem como objetivo integrar os alunos por meio de assembleias, rodas de conversa, votações e outras consultas às crianças. Com isso, “o município tem conseguido melhorar a convivência entre alunos, professores e equipe escolar”, aponta a coordenadora.

Guaxupé adotou, no ano de 2000, o Projeto Formação de Recursos Humanos para Implantação (Proepe), desenvolvido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “É justamente como tornar esses espaços mais democráticos e trazer uma certa autonomia para as crianças”, diz Érica.

“Para todos os alunos usamos o mesmo material didático, mas de uma maneira diferente. Por exemplo, a criança decide quando vai fazer a tarefa e qual será a tarefa”, diz Érica, que também afirma que essa metodologia traz benefícios para todo o corpo docente: “ O professor também consegue fazer indicações mais pontuais no desenvolvimento daquelas crianças”.

A coordenadora de educação de Guaxupé ainda relata que a autonomia dos alunos começa quando eles passam pelo portão da escola: “A partir dos 2 anos, a criança se serve, ela decide o que vai comer e como vai colocar a comida no prato. Ela também não precisa pedir para ir ao banheiro, o aluno só precisa pegar um crachá que fica disponível na sala de aula”.

Com as aulas remotas, Érica conta que o método continua. “Foi necessário fazer combinados para participação das aulas on-line, enquetes para ouvir pais e crianças pelo Google Forms. Também são debatidas as pequenas escolhas, como, por exemplo, quais serão as histórias lidas, brincadeiras, etc”, afirma.

A professora Viviana Pires, que também atua em Guaxupé, confirma o “sucesso de uma educação democrática”. Com 25 anos de sala de aula, ela diz que a qualificação do professor é a peça chave para entender as crianças e trazer uma igualdade para as aulas: “Pela prefeitura de Guaxupé recebi diversos cursos, de como agir e deixar fluir a individualidade de cada aluno”.

“Mas não é tão simples, a liberdade que os alunos têm é construída e conquistada, através de muita conversa. A criança entende que ela é uma peça fundamental, por exemplo, quando ela pega a fichinha e vai ao banheiro, ela desenvolve a consciência de que a presença dela é importante naquela aula e que ela só deve ir se tiver mesmo a necessidade”, afirma a professora.

Sobre a indisciplina, Viviane conta que o resultado também surge com a conversa. “Na pandemia, é um cenário completamente diferente, mas não menos importante, temos outras estratégias de atuação. Trabalho com crianças de 6 até 10 anos. Então você imagina, muitas vezes é aquela bagunça, ninguém escuta nada, então precisamos parar um momento e fazer uma roda para perguntar quais são as alternativas, o que devemos fazer? Perguntar para aquele amiguinho que não foi ouvido, se ele gostou? Temos que entrar em um consenso. Daí eles dão sugestões, como ‘ levantar uma mãozinha’ e de uma certa forma enxergamos aquele senso e responsabilidade mesmo a distância”, acrescenta a professora.

Pelo Brasil

De acordo com o projeto Cidadania 2.0, no Brasil há 135 “escolas inovadoras”. Em São Paulo, essa medida também é adotada, na Escola Politeia, que tem como gestora Gabriela Yañez. Ela conta que na instituição não só os alunos participam, de forma ativa, mas também os pais.

Yañez resolveu montar a Politeia durante a sua formação em ciências sociais. A escola, que funciona desde 2009, atende alunos do infantil até o fundamental II. De acordo com a gestora, o principal motivo para o pai colocar a criança em uma escola democrática é querer “desenvolver os valores e princípios básicos e a participação ativa dos pequenos nas atividades políticas”.

Para a gestora, também há uma corrente para se afastar das “falhas” da educação tradicional: “Aquele método de muito conteúdo, tarefa toda hora, pouco questionamento e nada de voz ativa nas decisões”.

Yañez explica: “Pensamos em momentos que possibilitem que as crianças vivenciem um monte de situação que não sejam só as aulas. Temos um conselho composto por toda a comunidade escolar, pais, crianças e professores. Também temos as comissões, que desenvolvem o dever de responsabilidade nas crianças, por exemplo: um grupo cuida da biblioteca, outro da organização e por aí vai…Temos as assembleias também para decidir a rotina, acho engraçado até que alguns pais contam que mesmo em casa alguns filhos querem fazer assembleias para decidir o que vão comer”.

Escolas tradicionais

Quando questionada sobre o motivo de as escolas democráticas não serem tão disseminadas pelo país, para Yañez a explicação é simples: “Tudo que é tradicional é mais acessível. Nadar contra a corrente é sempre mais trabalhoso. É mais trabalhoso para os pais cooperarem com as escolas, não é só entregar seu filho e pronto. Também é difícil o envolvimento na diretoria de ensino, validar as ideias e fazer questionamentos”.

Já o Ministério da Educação afirma que não existe um selo “escola democrática”, mas sim indicadores que tratam sobre a gestão democrática nas escolas do Brasil. “Inclusive, a meta 19 do Plano Nacional de Educação (PNE) prevê que deve se ‘Assegurar condições, no prazo de 2 (dois) anos, para a efetivação da gestão democrática da educação, associada a critérios técnicos de mérito e desempenho e à consulta pública à comunidade escolar, no âmbito das escolas públicas, prevendo recursos e apoio técnico da união para tanto’”, diz a assessoria da pasta.

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