Análise: rede social cria alerta contra quem pensa por si mesmo

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Usuários que não militam pelas minorias, não apoiam vitimismo e não usam idioma neutro serão advertidos

 

 

Depois de extensas buscas entre usuários de redes sociais, as big techs – com seus algoritmos que vasculham tudo o que acontece no mundo cibernético – detectaram diversos perfis com comportamentos classificados como “perigosos”. Como a ameaça era real e crescente, foi necessário que uma reunião virtual fosse feita entre os figurões que ditam as regras globais.

Desde suas fortalezas capitalistas, os maiorais das redes sociais fizeram um check list dos principais assuntos que permeiam seus interesses para, em seguida, debaterem sobre o que seria feito com os perfis que representavam ameaças potenciais ao grande projeto de poder que hackearam e crackearam da dupla Pink e Cérebro.

Bart Gutenberg foi o primeiro a se manifestar: “Perfis que não dividem o público pela cor da pele são inadmissíveis, temos que manter o ódio entre negros e brancos, mas, se não tomarmos uma providência, as pessoas podem começar a perceber que somos todos iguais e isso seria o fim das narrativas que levamos tanto tempo para incutir nas cabeças ocas dessa gente!”

Em seguida foi a vez de Jerry Paper, que afirmou categoricamente: “Temos que bloquear quem chama vitimismo de ‘mimimi’! Imagina o que pode acontecer se as pessoas chegarem à conclusão de que não são vítimas de nada? E se elas perceberem que o que aconteceu com seus antepassados não vai obrigatoriamente se repetir na vida delas? Seria um absurdo! Elas passariam a lutar com as próprias forças sem esperar por um salvador e, para nossa desgraça, terão muito mais chances de vencer na vida como nós. Não podemos correr esse risco!”

Todos concordaram que esses pontos não podiam ser ignorados, até que, em um rompante de genialidade, o líder da comunidade PQRSXYZ(+-x:)2 sugeriu: “Vamos detectar quem não usa idioma neutro e usar nossos seguidores mais fieis para promover uma grande campanha! Chamaremos todos que não aderirem ao novo idioma de preconceituosos e, em nome da tolerância, vamos fazer com que sejam odiados e cancelados pelo próprio público. Assim, ninguém poderá alegar que fomos nós!”

Depois de um longo aplauso, outro líder, Zin Pirlimpimpim, pediu silêncio e fez uso da palavra: “Tudo isso é ótimo, mas temos que começar a ação agora. Vamos apertar um par de botões e cancelar imediatamente algumas contas-chave que estão em desacordo com nossas pautas. Eles vão reclamar que é perseguição, mas nós temos como recorrer à justificativa de discurso de ódio. Mesmo que tenhamos que colocar de volta algumas delas, é certo que ficarão mais espertos e servirão de exemplo para os outros. Também podemos criar hoje mesmo um pop-up de advertência e, sempre que um perfil não seguir nossa agenda, o pop-up será exibido.”

Com seu raciocínio rápido e seus dedos habilidosos, enquanto ouvia o colega, Gutenberg foi preparando um esboço e projetou na tela uma ideia sobre o texto: “Ao tentar pensar por si mesmo, você burla nossas políticas. Se continuar, sua conta será bloqueada e poderá ser excluída. Conheça nossas regras por um mundo melhor – para nós – clicando aqui.”

“Ao clicar”, explicou Gutenberg, “a pessoa será direcionada para um ambiente onde receberá as informações anticapitalistas que preparamos nos últimos anos e também terá acesso aos dados manipulados sobre preconceito, exploração dos mais pobres e como o homem branco destruiu a sociedade. Por fim, podemos divulgar que quem fizer o download do ‘Manifesto Feminista Definitivo’ e do e-book ‘Socialismo é o Caminho’ ganhará um bônus: pararemos de diminuir o alcance de suas postagens”.

Todos concordaram com os termos, passaram as novas tarefas aos seus subordinados e, em seguida, puderam voltar a curtir o conforto que seus trilhões de dólares podem oferecer graças ao capitalismo. E, se tudo correr bem e seus seguidores pararem com essa bobagem de raciocinarem por si mesmos, os figurões das big techs continuarão a desfrutar de tudo o que esses mesmos seguidores jamais terão.

Esta crônica é uma ficção, mas poderia não ser…

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