O fim da pandemia está próximo? Especialistas respondem

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Vacinação e público em eventos esportivos dão sensação de vida normal, mas analistas dizem que ainda não é hora de euforia

 

Os jogos da Eurocopa, de tênis e da NBA (liga profissional norte-americana) com a presença de público, países sem a obrigatoriedade do uso de máscaras, a evolução da vacinação no Brasil e flexibilização das medidas de distanciamento passam a sensação de que a pandemia do novo coronavírus está perto do fim. Com isso, aumenta a euforia em busca de uma vida um pouco mais próxima do normal.

Porém, esse sentimento é contraditório quando o mundo se depara com mais de 350 mil novos casos de covid por dia. “Estamos em um período muito crítico e a maioria da população mundial não está imunizada. Os países que já estão sem máscara, quando vemos estádios de futebol e concertos com público, nos ilude que voltamos ao normal. Na realidade, essas imagens que vemos, não concordam com as estatísticas”, alerta Lorena Barberia, professora de Ciência Política da USP e membro do Observatório Covid-BR.

Na última quarta-feira (30), em entrevista coletiva à imprensa, Carissa Etienne, diretora da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) foi muito clara sobre o fim da pandemia.

“Este vírus atingiu todos os cantos do mundo e mudou o curso da história. Embora estejamos vendo algum alívio do vírus em países do Hemisfério Norte, para a maioria dos países em nossa região, o fim ainda é um futuro distante”, afirmou Etienne.

Lorena ainda explica que não é possível falar em fim da pandemia se ainda não se chegou ao controle da doença. “Não é o fim porque, pensando no Brasil, estamos vendo que não conseguimos nem controlar a pandemia. Nesse momento, ainda temos uma alta exposição ao vírus, mesmo para os vacinados. Tenho usado a analogia: as pessoas que estão vacinadas, nesse momento, é como sair durante um tiroteio com um colete à prova de balas, mas você está em um tiroteio”, diz a professora.

Falta de cobertura vacinal no mundo

Os especialistas apontam outros motivos que indicam que o mundo ainda vai ter de conviver por algum tempo com a circulação do SARS-CoV-2. A baixa cobertura vacinal é o principal motivo relatado, em termos dos países com imunização disponível e à falta de vacinas para menores de 18 anos.

Para Iris Zinha, coordenadora estadual da Associação Paulista de Saúde Pública e enfermeira, a situação está melhor, mas ainda teremos pelo menos um ano de problemas pela frente.

“Vemos uma sensação de ‘tem luz no fim do túnel’, porque tem. Mas, a pandemia não está acabando, principalmente no Brasil. A previsão é de pelo menos mais um ano de problemas, pela limitação das vacinações. Além disso, não conseguimos prever o início da vacinação para pessoas abaixo de 18 anos na maioria dos países”, ressalta Zinha.

Lorena acrescenta que a falta de vacinas para essa faixa etária vai determinar o futuro da pandemia. “A população adulta está se protegendo enquanto as crianças e adolescentes podem se tornar a população mais vulnerável. Isso vai mudar muito a interpretação e o longo prazo que conviveremos com essa doença”, explica a professora.

As temidas variantes

Outro fator importante para o controle da doença é o surgimento de novas variantes do SARS-CoV-2. Por enquanto, a OMS (Organização Mundial da Saúde) identificou quatro preocupantes: Alfa (surgida no Reino Unido), Beta (na África do Sul), Gama (Brasil) e Delta (Índia).

Altas taxas de transmissão da covid ajudam na formação de mutações dos vírus. Por isso, nem as pessoas vacinadas devem esquecer dos cuidados. Uma vez que os imunizantes não protegem da doença e sim da chance de ficar grave e levar à morte.

“A possibilidade de novas variantes é muito grande com o aumento da circulação. Tomou a vacina, dá para relaxar um pouco, porque estamos em um momento de tensão há mais de um ano, mas não pode relaxar de vez. Infelizmente estamos vendo isso”, observa a enfermeira.

O grande problema das mutações é que os novos causadores da covid podem conseguir vencer as vacinas produzidas para o combate da doença.

“Conhecemos, por meio das outras doenças infecciosas, que, à medida em que os vírus sofrem mutações, eles se adaptam. É uma corrida, porque quanto mais circulamos estamos mais dando chance de as variantes surgirem. Enquanto conversamos existem mais de 2 mil novas cepas circulando. Corremos o risco de, em algum momento, eles quebrarem a proteção conseguida com a vacina”, ressalta Barberia.

No Brasil, essa euforia e a falsa sensação do fim têm feito com que as pessoas sejam mais negligentes com a vacinação. “A população tem a sensação de alívio e pensa: a situação está mais tranquila, não aconteceu nada comigo até agora e acham que podem demorar para vacinar ou escolher o imunizante. Isso é muito grave”, conta Isis.

“Precisamos continuar vacinando e esses movimentos podem atrasar ainda mais o processo de vacinação. A sensação de que ainda estamos em pandemia tem de ser mais longa para de fato conseguirmos controlar”, completa ela.

O fim do problema passa também pela conscientização das pessoas. “Precisamos desconstruir a imagem que está tudo bem porque as pessoas estão assistindo jogos de futebol e vão à concerto. É a minoria da minoria que está vivendo essa realidade. A maioria, mesmo nos países vacinados, é de pessoas muito preocupadas, com medo da doença e do colapso econômico. Nada está normal”, aponta a professora do Observatório Covid-BR.

E finaliza: “No ano passado, as pessoas pensavam: isso surgiu e em algum momento vai sumir do planeta. Nesse momento, o conceito científico é que precisamos entender que teremos uma longa convivência com esse vírus. Ele não vai sumir!”

 

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