Após sete anos preso sem provas, trabalhador rural é libertado

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“Será que é verdade? Vou passar do portão primeiro”, relatou ao jornal Folha de S.Paulo. José Aparecido estava preso em Iperó

 

Após passar sete anos preso sem provas, o trabalhador rural José Aparecido Alves Filho custou a acreditar que realmente seria solto nesta sexta-feira (2). “Será que é verdade? Vou passar do portão primeiro”, relatou ao jornal Folha de S.Paulo. José Aparecido estava preso em Iperó, no interior paulista, cumprindo uma condenação de 21 anos baseada em uma delação que depois foi desmentida. Após reportagem da Folha de S.Paulo, parte da série Inocentes Presos, o ministro Edson Fachin anulou a condenação e expediu na quinta (1º) alvará de soltura do trabalhador rural.

O homem recebeu a notícia por volta da 11h. “A doutora me disse: ‘Zé, seu alvará chegou’. Eu não acreditei, comecei a chorar e não parei mais.” Ele saiu às 15h58. Quando se aproximou do portão principal e viu a mulher, Vanessa, 32, e os filhos Gabriel, 11, e o caçula Fabrício, 9, e começou a chorar. Diferentemente de outros presos, ele não precisou colocar nada no chão para abraçar os familiares. Estava de mãos vazias. “Deixei tudo. Eu doei porque tem gente que precisa muito mais do que eu. E saio daqui pra nunca mais voltar, se Deus quiser”, disse.

A mulher o esperava com uma edição da Folha de S.Paulo nas mãos. “Graças a ele [jornal] que o Zé está saindo. Foi por ele que o milagre aconteceu”, disse ela. Vanessa disse que comprou um total de cinco exemplares. As edições servirão para mostrar para pessoas que duvidavam da inocência do marido e também como lembrança de um dos momentos mais felizes da vida. No fim de semana, a família fará um churrasco para comemorar a saída de José Aparecido. “Vamos ter que fazer uma vaquinha [para comprar a carne]”, afirmou Vanessa.

Nos últimos sete anos, as economias da família se foram. Sem o arrimo de família, eles vinham se sustentando com R$ 257 do Bolsa Família e R$ 200 de mesada da mãe de José Aparecido. A família vive na cidade de Tuiuti, no interior paulista. A chegada de José Aparecido, não mais como condenado, será marcada por fogos de artifício e a presença de toda a família. A vida agora, se depender de José Aparecido, será bem diferente. Inicialmente, ele pode voltar a trabalhar para algum antigo empregador, uma vez que alguns ligaram para a família comovidos, após lerem a reportagem da Folha de S.Paulo.

No futuro, porém, quer mudar de ramo. Após trabalhar na enfermaria da prisão, ele resolver que quer ser técnico de enfermagem. “Ele sempre gostou de cuidar de cavalo, vaca. Agora quer cuidar de gente”, comentou a mulher do trabalhador rural. Agora, o caso de José Aparecido voltará a antes da etapa de condenação, em primeira instância.

Em sua decisão, Fachin determinou também que seja feito um novo interrogatório de Evandro Matias Cruz, réu confesso do crime. Ele voltou atrás nas afirmações feitas em delegacia em 2014 e disse que José Aparecido é inocente. “Não é justo alguém estar pagando por algo que não cometeu. Não tem por que a pessoa estar ali presa sem ter cometido o crime. Quem tem que pagar somos nós que cometemos. Ele está pagando por um crime pelo qual ele não cometeu”, disse Evandro à Justiça.

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