Em Brasília, médico é acusado de cobrar por emissão de laudo

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Mesmo para pacientes com prontuário na clínica Procor, cardiologista pede o valor de R$ 200

 

 

A corrida pela vacina entre a população está abrindo mercados. O Jornal de Brasília recebeu uma gravação telefônica na qual um paciente de uma clínica solicita um laudo médico que ateste doenças crônicas. Atendido por um funcionária, Rafael Lago, de 46 anos, é informado de que o custo para “uma conversa” com o médico Carlos Henrique Allemand Borges, que o atendia há quase uma década, seria de R$ 200.

Surpreso, o denunciante chega a questionar a funcionária se seria mesmo cobrado para emitir um laudo de comorbidade atestada pelo próprio médico em outras ocasiões.

“Ele tem todo o meu histórico no sistema da clínica. Aliás, eles são obrigados a guardar o prontuário. Não entendo qual a dificuldade de consultar e emitir um laudo. Isso, para mim, é fraude”, denuncia o paciente.

A gravação tem cerca de dois minutos e mostra a recusa da clínica Procor, situada na Asa Norte. Rafael chega a comentar que ouvira de outra pessoa a cobrança por laudos de comorbidade, algo descartado por ele, já que “ele [Carlos]é uma pessoa tão bacana”. “Eu só quero o laudo”, insiste o homem, ao que é respondido que “somente com agendamento de consulta” teria acesso ao laudo. A cobrança, segundo a atendente, é relativa ao encontro com o médico na modalidade particular.

Em determinado momento, a atendente pergunta se o laudo seria usado “para vacinação”, ao que obtém resposta positiva do interlocutor. Aí, ela explica os novos procedimentos adotados pela instituição. “Como nós estamos com demanda grande em relação à vacinação, somente com consulta com o doutor”, explica a funcionária. O denunciante pede, então, para falar diretamente com o médico, mas a negativa vem do outro lado da linha. “Os médicos não estão atendendo telefone”, diz a colaboradora, que ainda insiste para um atendimento agendado. “Nunca mais”, responde o paciente, antes de encerrar a ligação.

“Eu pagaria 200, 300, 600 reais por uma consulta médica. Não é pelo dinheiro. É pela malandragem. Eu sou paciente dele. Entendo perfeitamente se fosse uma pessoa aleatória, mas eu consulto há anos com ele”, rebate Rafael.

“Está um inferno”

Contactado pela reportagem, Carlos Henrique Allemand Borges se defendeu das acusações e atribuiu a exigência de nova consulta para emissão do laudo de comorbidades aos protocolos de proteção contra o novo coronavírus. “Tudo por causa da covid, para não ficar a clínica cheia. Se ele não gostou, paciência”, afirma. O médico ainda indicou que a rotina no consultório “está um inferno” desde a ampliação da vacinação para o público com doenças crônicas.

O médico também alega a quebra na dinâmica e um desrespeito à fila de pacientes agendados caso a prática, segundo ele, criminosa, seja difundida. “Um atestado falso é crime”, vaticina. “Tem que parar de atender para passar o laudo, para atender uma pessoa que pode ou não pegar o laudo”, exaspera-se. Allemand alega ainda que a exigência da consulta para emissão de atestados de doenças crônicas é um protocolo da Procor, seguido por todos os médicos. “A clínica passa a exigir uma consulta, a preço de convênio”, defende-se.

Rafael rebate o médico e diz que não pediu nada que não seja honesto. “Eu nunca pedi um atestado falso para mim. Eu pedi um atestado baseado no meu prontuário que ele tem há anos e ele quer me cobrar para emitir um papel”, acusa.

Instado, o Conselho Regional de Medicina do DF (CRM-DF) apontou que não houve qualquer relato do gênero na mesa da entidade. “Em relação aos questionamentos enviados para esta Regional, a Assessoria de Comunicação do CRM-DF informa que, até o presente momento, não recebeu nenhuma denúncia relativa à emissão de laudos falsos com o objetivo de furar a fila de vacinação da covid-19.”

Denúncias contra profissionais de medicina são protocoladas por escrito – seja por meio digital ou físico – e entregues por correspondência, pessoalmente ou através do e-mail depes@crmdf.org.br. O CRM-DF fica no Centro Empresarial Parque Brasília, localizado no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), quadra 01, lote 985, sala 202.

Em vídeo, o presidente do CRM-DF explicou o passo a passo para denúncias relativas a práticas irregulares de médicos. “Recebendo uma denúncia, é aberta uma sindicância, com investigação preliminar para ver se há indícios de falha ética”, explica. “Havendo indícios (…), passa a outra etapa, que é o processo ético (…), que dá oportunidade do médico se defender”, complementa. “Depois, isso será levado a um julgamento ético-profissional”.

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