PCDF recebe denúncia contra advogados que zombaram de estagiários negros

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O advogado que disponibilizou uma vaga para estagiários negros e recebeu deboche pelo WhatsApp foi até a Decrin e conversou com a delegada

 

O advogado Max Telesca e o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)/seção DF (OAB-DF), Beethoven Andrade, foram à Delegacia de Crimes Raciais (Decrin), nessa segunda-feira (10/5), denunciar um caso de racismo dentro de um grupo de advogados de Brasília no WhatsApp. O fato foi publicado pelo Jornal Metrópoles, no sábado (8/5), quando a reportagem divulgou mensagens ofensivas a uma vaga de estágio para negros, disponibilizada pelo escritório de Telesca.

Durante a tarde, o advogado municiou a Polícia Civil de informações sobre mensagens de deboche, escritas em grupos com diversos advogados de Brasília. De acordo com Telesca, houve uma tratativa com a delegada Ângela Maria dos Santos, titular da especializada, para que não fosse registrado um boletim de ocorrência, mas sim feita uma representação para ser entregue a ela e ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).

“Apesar de ter mais de 20 anos na área de advocacia, estamos falando agora de uma pauta inclusiva. Fizemos a ocorrência na Decrin e o próximo passo é uma representação dessa matéria junto ao MPDFT”, disse Telesca.

Veja o que disse o advogado na delegacia:

Antes da iniciativa do advogado, a seccional do Distrito Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-DF) decidiu, no sábado (8/5), encaminhar a denúncia ao Tribunal de Ética e Disciplina para apuração do episódio.

À reportagem, o presidente do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-DF, Antonio Alberto do Vale Cerqueira, afirmou que o colegiado é responsável pela fiscalização dos aproximadamente 67 mil advogados inscritos na ordem.

“Seguindo a política inclusiva da OAB-DF, [o tribunal] entende como intoleráveis atos de preconceito, ainda mais aqueles galgados no racismo estrutural, que vão contra os ideais inclusivos que devem nortear quaisquer políticas públicas”, disse.

De acordo com Antonio Alberto, o tribunal “tem como dever de ofício apurar máculas às condutas éticas” que devem ser seguidas pela advocacia, nos termos da lei do Código de Ética e Disciplina que regula as atividades da categoria profissional.

“Já determinamos a abertura de processo investigativo para apuração e eventual responsabilização dos envolvidos, sejam inscritos na ordem para estágio sejam já atuantes na advocacia”, reforçou.

“Uma vez comprovadas declarações preconceituosas e de cunho racista em grupos de advogados, praticadas por aqueles afetos à jurisdição do TED, elas certamente serão punidas de forma exemplar e em obediência à legislação pertinente”, concluiu.

Entenda o caso

A iniciativa do escritório de advocacia de Brasília em abrir seleção para contratar estagiários negros foi recebida com deboche por um grupo de bacharéis em direito. No WhatsApp, alguns deles trocaram mensagens zombando da ação.

O texto do escritório Telesca e Advogados Associados, com a chamada “Vaga de Estágio para Afrodescendente”, mal foi enviado e os comentários contrários à iniciativa começaram. Veja o anúncio:

ReproduçãoVaga de estágio para negrosEm dois grupos formados por integrantes da OAB, a seleção foi duramente criticada. Alguns, inclusive, fizeram piadas, postaram frases de duplo sentido e enviaram emojis discriminatórios.

Um dos participantes, Yure Gagarin, usou expressões como “racismo contra branco” e “vou chamar meu primo macaco para preencher a vaga” ao comentar a intenção do escritório em dar oportunidade para jovens estudantes negros. Em outro momento, um defensor chegou a postar a hashtag #forapreconcietobranco. Veja abaixo:

A divulgação gerou questionamentos sobre por que o escritório estava “excluindo as pessoas brancas da seleção”. Um dos integrantes do grupo chegou a citar que “grande parte da população” estava sendo impedida de participar do processo. “Acho lindo o racismo contra branco”, completou.

Uma advogada loira, identificada como Lisbeth Bastos, ironizou: “Então posso mandar meu CV. Já fui muito discriminada por Deus ter me feito linda”. Yure Gagarin responde, então, com figurinha de integrantes do famoso “meme do caixão”, sugerindo que seriam os novos estagiários do escritório. Quem interage com ele durante o deboche é outro advogado da cidade, Renato Denis.

Inclusão

Após receber os prints das conversas, a reportagem entrou em contato com o proprietário do escritório que ofertou a vaga de estágio para negros. O advogado Max Telesca afirmou ter tido a ideia como uma medida afirmativa.

“Foram falas revoltantes. As pessoas ainda não entenderam o racismo e o racismo estrutural. A nossa ideia é fazer uma ação inclusiva e afirmativa. Jamais pensei que algo tão sério fosse tratado com um nível tão baixo. Perderam a noção, ou melhor, acho que nunca tiveram” revoltou-se.

O que dizem os citados

Gagarin afirmou que todas as mensagens são montagem e negou ter feito os comentários no grupo. “Fui apenas espectador. Vi os comentários, estou nos grupos, mas não digitei nada disso. Meu avô é negro, minha avó também, tenho descendência negra e jamais faria esse tipo de comentário. Vou à polícia denunciar a fake news contra mim”, alegou.

Já Renato Denis confirmou a autoria das mensagens nos grupos. O advogado disse que os grupos são destinados “à descontração entre os amigos da OAB”. “O grupo não reflete o que eu penso. Não é nada para ser levado a sério. Em momento nenhum entrei no mérito de racismo. Não emito valor sobre isso. Ali estava brincando, como várias outras brincadeiras que acontecem lá”, disse.

A advogada loira que disse ter sofrido “discriminação por ser linda” é Lisbeth Bastos. Ela não foi localizada pela reportagem para comentar o caso. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações.

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