Análise: Como recuperar 16 anos de atraso? 

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Segundo a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, o aprendizado de português e matemática regrediu drasticamente durante a pandemia

 

Por mais que muita gente diga – inclusive jornalistas – que o mundo todo fechou as escolas para conter a pandemia e que o Brasil está seguindo a ciência, os dados e os fatos apontam justamente o contrário. O Brasil é, na verdade, uma exceção mundial quando o assunto é o fechamento das escolas.

Diversos países da Europa decretaram lockdown, alguns bastante severos, mas os colégios se mantiveram abertos praticamente o tempo todo. França, Portugal, Bélgica e Grécia são alguns exemplos, sem que isso representasse aumento nos casos de covid-19. E mesmo os países que optaram pelo fechamento das instituições de ensino, como Alemanha e Inglaterra, a medida foi ou está sendo adotada por menos tempo que no Brasil. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), estamos no time dos recordistas em manter as escolas fechadas por mais tempo.

Há que se considerar também a diferença de estrutura financeira entre países de primeiro mundo e o nosso, afinal de contas, por aqui, internet de qualidade e computador pessoal são itens de luxo. Em uma família com um único computador conectado a uma internet precária, tendo pai e mãe trabalhando de casa, qual aluno poderá usar o equipamento por várias horas seguidas para assistir vídeo-aulas? E nem sequer estamos mencionando as milhares de famílias que nem isso têm. Além do mais, em países com inverno muito rigoroso, onde os colégios precisam ser fechados, já existe a implementação de aulas on-line há bastante tempo, o que nunca aconteceu por aqui.

Para a OCDE, a pandemia representou um “abalo sísmico” na educação mundial, mesmo em países com mais estrutura para a implementação do ensino a distância. Mas e quanto ao Brasil? Qual está sendo o resultado do fechamento das escolas por tempo recorde com pouquíssima ou nenhuma estruturação por parte do poder público?

De acordo com um levantamento da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo (Seduc) sobre o aprendizado de português e matemática, houve uma drástica regressão em comparação com 2019 – quando os estudantes brasileiros já apresentavam resultados abaixo da média no Pisa, por exemplo. O estudo apontou que os alunos do 5º ano regrediram aos índices de 2007, enquanto a situação entre os estudantes do 3º ano do ensino médio é ainda pior: a queda chegou aos índices de 2005, indicando 16 anos de atraso, o pior resultado da série histórica.

Para o secretário da Educação, Rossieli Soares, o desafio é “priorizar a educação ou teremos uma catástrofe”. E acrescenta que “se avaliarmos a questão emocional [dos alunos], o impacto é ainda maior.” Resta saber como recuperar uma perda tão acentuada em um ensino que já estava abaixo da média mundial. Como avaliar o impacto real que esse fechamento sem o menor planejamento e critério terá no futuro deste país? A educação brasileira já estava na UTI há muito tempo, mas o que esperar daqui para frente com tremenda piora no diagnóstico? A indiferença dos governantes que se limitam a repetir que estão “salvando vidas” está colocando o nosso país em um buraco cujas dimensões ainda não conhecemos. O Brasil atravessa, além da pandemia, uma epidemia de descaso, corrupção e muito engano.

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