Análise: Estamos vivendo uma era da empatia ou da psicopatia?

0

Palavra frequente nas redes sociais, a empatia virtual não vai além de mais uma falsa sinalização de virtude que não se concretiza

 

O antigo ditado “caiu na rede é peixe” ganhou outra vertente: caiu na rede é vítima. Qualquer pessoa que tenha projeção nas redes sociais – onde tanto se fala sobre empatia – acaba padecendo justamente pela falta dela. Hoje em dia, as pessoas parecem realmente acreditar que a criação de um perfil politicamente correto as transforma em pessoas virtuosas, ainda que suas atitudes sinalizem exatamente o contrário.

Por conta de uma postagem no meu Instagram sobre autorresponsabilidade financeira, uma seguidora se achou no direito de me ofender pessoalmente, dizendo – além dos xingamentos – que, como eu havia “nascido em berço de ouro”, não tinha ideia do que é ser pobre no Brasil. Primeiramente, eu não nasci nesse tal berço.

Tive uma infância pobre, uma adolescência pobre e parte da vida adulta igualmente pobre, chegando a perder o pouco que havia construído até os 30 anos de idade em um mal negócio. Só depois dessa triste experiência – que me levou a me tornar especialista em finanças pessoais – é que encontrei o caminho da prosperidade. Mas essa é outra história.

O fato é que fui verificar quem era a seguidora cuja criatividade para a ficção e para o uso de palavras de baixo calão me pareceram acima da média. Eis que, para minha surpresa, sua biografia dizia: “Sou do bem. Busco um mundo com mais empatia, tolerância e respeito ao próximo.” A única coisa que consegui pensar foi na minha sorte de ter encontrado alguém do bem, afinal, nem consigo imaginar o que ela me escreveria se não fosse…

É isso: enquanto a palavra corre solta, a prática é bem mais rara. A falta de empatia não respeita nada, nem mesmo a morte. Um exemplo recente foi a fatalidade que vitimou Tom Veiga, a voz do Louro José, com quem trabalhei no antigo programa Note & Anote, apresentado por Ana Maria Braga. Apesar de a causa da morte – um acidente vascular cerebral – ter sido amplamente divulgada, surgiram duas teorias: a de que ele fora vítima de envenenamento e a de que o AVC teria sido desencadeado por uma depressão por conta do processo de divórcio que vinha enfrentando.

Isso foi o suficiente para tornar a vida de Cybelle Herminio, no caso, a viúva, em um verdadeiro tormento. Em questão de poucas horas, o número de seguidores em uma de suas redes sociais triplicou, dando início a uma enxurrada de ofensas de todos os tipos, incluindo acusações de assassina. E, por incrível que pareça, os xingamentos partiram, em sua maioria, de mulheres.

Sendo assim, onde fica a tal sororidade? E o que dizer da total falta de empatia com alguém que havia acabado de perder uma pessoa em meio a um divórcio que já é doloroso por si só? De onde surge tanto ódio quando as pessoas falam tanto de amor?

E hoje, no dia em que a internação do ator Paulo Gustavo completa um mês, por conta de complicações da covid-19, chega a ser assustador o número de postagens e notícias falsas sobre seu estado de saúde e até mesmo de sua suposta morte. Em uma tentativa de diminuir um pouco o sofrimento da família, sua irmã, Juliana Amaral, fez um apelo nas redes sociais:

“Imagine-se passando pelo momento mais difícil da sua vida, na qual seu irmão, a pessoa mais importante para você, está lutando pela vida. Você precisa ser forte, tirar forças de lugares que nem sabia que tinha, para apoiar a sua mãe, uma senhora de idade que teme pela vida de seu filho. Agora, imagine-se passar por isso, tendo que constantemente ler notícias enganosas, como por exemplo, que seu irmão perdeu a batalha. Sei que milhares de famílias brasileiras estão passando pelo mesmo do que a minha. Por isso, eu suplico aos jornalistas, que tenham empatia e deixem de espalhar notícias falsas buscando ganhar cliques ou visibilidade as custas de nossa angústia e a dos fãs.”

Juliana teve de recorrer à realidade, na qual aparentemente muita gente não vive mais. Ela precisou lembrar que o caso envolve pessoas como quaisquer outras, e que fazem parte de uma família que está sofrendo. Teve de conduzir um raciocínio que mostra que ali existe um filho, uma mãe, um irmão, enfim, seres humanos. Quando me lembro que uma das técnicas de negociação com sequestradores é a humanização, ou seja, fazer o criminoso entender que o que ele percebe apenas como mercadoria é, na verdade, um ser humano, fico sem saber o que pensar sobre o futuro da nossa sociedade.

Empatia não pode ser apenas uma palavra da moda, mas é preciso que as pessoas se lembrem – ou aprendam – que ela significa sanidade. Não se trata de uma virtude em si, mas sim, do mínimo que se espera de seres que se dizem humanos. Afinal de contas, psicopatia nada mais é do que a falta de empatia.

anuncio patrocinado