Pandemia muda a vida dos profissionais da linha de frente

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Decisão de se afastar dos filhos para evitar contaminá-los é um dos sacrifícios pessoais de quem luta para salvar vidas

Quem está na linha de frente no socorro às vítimas da pandemia tem sacrificado a própria vida pessoal para salvar vidas. O medo de ser infectado e de contaminar parentes fez com que profissionais de saúde mudassem rotinas cotidianas e adotassem comportamentos que exigem pesados sacrifícios. Um deles: se manter longe dos próprios filhos.
Essa foi a decisão da técnica de enfermagem Luana Jordão da Cunha, 36 anos, que há cinco meses está longe do filho Enzo Gabriel, 5. O menino fica no Piauí, na casa dos avós, enquanto a mãe trabalha na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Covid do Hospital de Base, administrado pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF).
Sem ter com quem deixar Enzo e com medo de contaminá-lo, optou pela distância. “Para mim, é muito difícil chegar em casa, sentir um vazio, me lembrar do meu filho”, lamenta a moradora de Águas Lindas (GO). “Mas prefiro ficar longe e pensar que ele corre menos riscos de pegar essa doença. Meus pais moram no interior, e me sinto mais segura com ele lá.”
Antes mesmo de se separar de Enzo, a pandemia já havia alterado completamente a rotina doméstica de Luana. “Meu pai, de 63 anos, estava em tratamento médico e ficou comigo do início da pandemia até novembro do ano passado”, conta. Nesse período, era o avô Edimar que mais ficava com Enzo. “Sempre que podia, eu me isolava em um quarto em construção na minha própria casa. Era horrível manter a distância do meu filho. Estava perto e ao mesmo tempo longe”, lembra a técnica de enfermagem, que costumava usar máscara quando estava perto do pai.
Luana atua na linha de frente desde o início da pandemia. Nesses 12 meses, se questionou várias vezes se estava no caminho certo e pensou algumas vezes em largar tudo para ficar com a família no Piauí. “Eu sempre penso: ‘Deus, estou deixando de cuidar do meu filho e dos meus pais para cuidar de pessoas que eu nem conheço?'”. Religiosa, é na fé que a profissional encontra a resposta para a própria pergunta. “Foi Deus que me colocou no Hospital de Base, porque tem vidas aqui dentro que precisam de mim”.
A muitos quilômetros de distância
Morar em estados diferentes também foi a decisão da família de Josiene Nunes de Souza Lopes, 41 anos. A enfermeira da UTI Covid do Hospital de Base ficou sozinha em casa, em Vicente Pires, já no início da pandemia. “Meu filho, Fidelis, tem asma e bronquite e teve que sair de casa com o meu marido, que estava de teletrabalho e pôde acompanhá-lo.” Em março de 2020, os dois foram para o interior da Bahia, onde vivem alguns parentes, e só voltaram em fevereiro deste ano.
Em março, com o agravamento da segunda onda da pandemia, Fidelis Antônio, de 18 anos, se afastou novamente: está na casa de uma tia em Águas Claras. “Eu o vi poucas vezes nesse período, sempre fazendo quarentena e tomando todos os cuidados”, conta Josiene.
A enfermeira também tem uma filha de 21 anos que não mora mais com ela. Júlia e Josiene encontram-se a cada 15 dias para almoçar. “Faço higienização completa, mas também tento ficar de máscara a maior parte do tempo em que estou com ela.”
Sobre o dia mais difícil até agora da longa batalha contra o vírus, a profissional da linha de frente lembra alguns: quando teve que ver as irmãs e os sobrinhos apenas pela janela do apartamento e de quando uma das irmãs pegou covid e ficou internada até se recuperar. “Na minha mente, vêm ainda os tantos dias em que pacientes prestes a serem intubados seguravam na minha mão e perguntavam se iam morrer ou pediam para que eu não os deixasse morrer. Isso me emociona até hoje.”
Na mesma região, em casas separadas
Acostumada ao movimento de um lar com quatro pessoas, a técnica de enfermagem de UTI Leidiane Carneiro Praxedes, 35 anos, viu-se obrigada a morar sozinha logo no início da pandemia, com medo de levar o vírus para o marido, que é hipertenso, e para a sogra de 79 anos, ambos considerados de grupo de risco para a covid-19. O filho do casal, Miguel, 8 anos, ficou com o pai e a avó, enquanto Leidiane fez as malas e foi viver em outra casa da família, que estava desocupada.
Foram quatro meses longe, numa casa na mesma região administrativa onde estão os familiares, no Gama. “Nos falávamos por telefonemas e videochamadas, porque eu tinha muito medo de entrar em contato com eles”, conta a técnica de enfermagem do Hospital Regional de Santa Maria (HRSM), também administrado pelo Iges-DF.
A distância foi quebrada quando Leidiane tirou férias, fez um teste de covid-19 e obteve o resultado negativo. Aproveitou para passar uns dias com o filho, mas saiu novamente de casa, quando precisou voltar ao trabalho. Depois de mais algumas semanas, não aguentou mais. “Meu filho sentia muita falta, e comecei a ter crises de ansiedade, precisei fazer um tratamento para controlá-las”, conta.
Hoje, na segunda onda da pandemia do coronavírus, a profissional de enfermagem e a sogra já estão vacinadas, mas o marido e o filho não. “Decidi não sair mais de casa, mesmo sabendo dos riscos, mas os cuidados são intensos. É de casa para o trabalho e só. Não vou à igreja, não me exponho a nada. Tenho que pensar neles”, diz Leidiane.

Mesmo em casa, o distanciamento ocorre em muitos momentos. “Separei um quarto para mim, uma poltrona longe. É difícil, mas a gente vai se adaptando.”

Texto: Marina Mercante
Fotos: Arquivo Pessoal e Davidyson Damasceno/Ascom Iges-DF
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