Ações emergenciais preparam a revitalização do Conjunto Fazendinha

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Depois de anos de abandono, o Conjunto da Fazendinha Pacheco Fernandes promete entrar de vez na história da capital com o protagonismo a que faz jus. A área de pouco mais de 33 mil metros quadrados na Vila Planalto – com cinco casas de madeira ao estilo modernista, edificadas a partir de 1957 para dar moradia a autoridades, executivos, engenheiros e técnicos na construção de Brasília – é alvo de ações emergenciais para evitar mais danos às construções. Tombado em 1988, o patrimônio aguarda a conclusão de Termo de Referência (previsão dia 16/03) para licitar obras de revitalização ainda neste semestre.

Das cinco casas, apenas duas ainda estão em condições de uso, e o conjunto enfrenta as ameaças do período de chuvas que o Centro-Oeste atravessa.

“Estamos cientes da gravidade da situação e trabalhamos com a celeridade possível para recuperar esse importante sítio da história da capital e integrá-lo não só a paisagem do DF, mas a vocação da Vila Planalto, como uma comunidade histórica e turística”, afirma o secretário de Cultura e Economia Criativa (Secec), Bartolomeu Rodrigues, que será o relator do projeto de revitalização da Vila Planalto junto ao Conselho de Planejamento Territorial e Urbano do Distrito Federal (Conplan), da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Seduh).

 

AÇÕES EMERGENCIAIS

 

Enquanto aguarda a elaboração do Termo de Referência que marcará os processos licitatórios de intervenção no Conjunto Fazendinha, o subsecretário do Patrimônio Cultural, Demétrio Carneiro, conta que a revitalização ocorrerá em três etapas distintas.

 

Em execução, a primeira envolve medidas imediatas que permitam garantir a integridade das edificações, especialmente em vista das fortes chuvas. Seguem-se o trabalho de poda de árvores e retirada de entulho, além de substituição de telhas, colocação de escoras e proteção das estruturas colapsadas ou ameaçadas de cair. Recentemente, houve a remoção ecológica de colmeias de abelhas.

 

“A etapa seguinte é a reforma propriamente dita das edificações e do lote. Por se tratar de edificações tombadas, revitalização e reforma deverão ser feitas por empresa especializada. Teremos primeiro a necessidade de contratar empresa de arquitetura com expertise em edificações em madeira, uma vez que o tombamento exige a manutenção dos métodos construtivos originais, elementos arquitetônicos típicos”, explica o subsecretário.

 

A terceira etapa envolverá a elaboração de um projeto paisagístico e de iluminação, respeitando as características “bucólicas” da Fazendinha.

 

Graduado pela UnB, mestre em desenho urbano e servidor da Secec, o arquiteto Antônio Menezes Junior enfatiza que as ações acontecem com a participação da comunidade local. No próximo dia 9/3, haverá uma Audiência Pública, organizada pela Administração do Plano Piloto com participação da Secec.

 

“A Vila Planalto é importante para nós, para Brasília, para o país, para a humanidade”, diz a moradora Leiliane Rebouças.

 

Arquiteto Antônio Menezes

Sobre a área verde, que, segundo ele, por sua densidade vegetal, faz o papel de “um pequeno pulmão” para a aglomeração urbana com cerca de mil lotes, usos recreativos e sociais também serão definidos em discussão com os moradores. Antônio explica que essa área, com vegetação típica do cerrado, mas também com outras espécies, será adequada ao uso coletivo, respeitando-se as características dos espaços e levando-se em conta eventos que poderão ser realizados depois da pandemia.

 

CINCO CASAS

O valor arquitetônico e histórico das casas da Fazendinha pode ser afiançado, como revela documento da doutora em urbanismo e arquiteta Yara Regina Oliveira. O conjunto compreende forros tabuados lisos, paredes externas de madeira no sistema macho-fêmea, com uso de espécies locais de árvores como jatobá, ipê, tuturutá, itaúba, cumuru e ipê, baldrames (alicerces) de alvenaria e pedra, cobogós originais, muxarabis (treliças) em diagonal para controle da temperatura ambiente e da luz.

 

Além da deterioração causada pelo tempo e pela falta de ação de governos passados, há um conjunto de agressores naturais, como exércitos de xilófagos – cupins, brocas, tipos de besouro e vespas – além de fungos de vários tipos. Ao lado do assalto das águas de tempestades, há também o risco de incêndios, inclusive porque o conjunto não conta com para-raios numa área em que descargas elétricas atmosféricas são comuns.

 

Em seu diagnóstico, a arquiteta sustenta que “a Vila Planalto ocupa um lugar central para o desenvolvimento do eixo cultural de ligação entre os edifícios históricos do Palácio da Alvorada ao Palácio do Planalto, sendo uma das principais protagonistas”.

 

“A Vila Planalto possui uma característica diferenciada: está ao lado do centro do poder político do país. De todas as vilas que resistiram e sobreviveram, ela talvez tenha sido a que sofreu maior pressão para ser removida. Talvez, por esse motivo, ainda seja possível perceber o forte vínculo que os moradores têm com o lugar”, completa.

 

VOZES DA COMUNIDADE

 

Em artigo recente na revista “Café com Europa – Brasília 60 anos” (2020), publicação editada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de Brasília (UnB), a bacharel em Relações Internacionais Leiliane Rebouças aborda o esforço de preservação de edificações de madeira na Suécia, país que visitou como referência para intervenções na Vila Planalto.

 

“O urbanista Lúcio Costa tinha planos diferentes para o local. O criador do projeto do Plano Piloto pretendia que fossem construídas no espaço superquadras econômicas, com prédios de até seis andares, denominadas de ‘Superquadras Planalto’”, lembra.

 

Leiliane, com mestrado em turismo ligado ao patrimônio, também pela UnB, nasceu e mora na Vila Planalto. É filha de pioneiros – pai e mãe vieram do Ceará e se casaram na Igreja Nossa Senhora do Rosário em 1961. Com dez anos, em 1986, furou o cordão da segurança do então presidente da República José Sarney para lhe entregar uma carta de moradores da Vila, que sofriam, segundo relata, “risco iminente de despejo”.

 

Na carta, pedia a fixação dos moradores e o tombamento da área, o que aconteceu dois anos depois, sob a gestão do governador do DF à época, José Aparecido de Oliveira, com quem tem foto no gabinete. Ela pretende lançar, depois da pandemia, um livro que relata a história de luta dos moradores locais: “Vizinhos do Poder. História e Memória da Vila Planalto”, com 200 páginas, ainda em busca de editora.

 

“Não podemos nos esquecer que o nome do país vem de uma madeira. As pessoas não dão o devido valor a isso”, arremata Leiliane. As ações dela e dos moradores desse enclave não planejado às beiras o Lago Paranoá, que ecoam nos horizontes da capital, estão aqui para nos lembrar.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Ascom/Secec)

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