Com o tempero da solidariedade

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Adenilson Cruz está desempregado. Mesmo assim, distribui todos os dias 350 marmitas pelas ruas a pessoas que estão mais necessitadas do que ele

 

A missão de alimentar o próximo

Solidariedade. Para Adenilson Cruz, de 42 anos, essa é sua missão. Desempregado desde janeiro deste ano, o “Irmão”, como é conhecido por muitos, escolheu transformar as doações que recebe para se manter, em comida para moradores de rua. “Essas pessoas podem reescrever suas histórias, mas para isso elas precisam resgatar sua auto-estima. Isso se faz amparando e transmitindo amor”, conta o morador do Guará I.

Nascido no município de Caconde, em São Paulo, Adenilson veio para Brasília em 2004. Desde 2015, ele trabalhava vendendo e doando marmitas em frente ao Hospital Universitário de Brasília (HUB), até ter sua atividade proibida pela Agência de Fiscalização do DF (Agefis). “Vendia comida para quem podia pagar e doava para quem não podia”, explicou. Quando as notícias sobre a pandemia começaram a circular, Adenilson, motivado pelo seu amor em ajudar o próximo, se viu diante de uma tarefa. “Ou eu pagava minhas contas, ou ajudava as pessoas que moram nas ruas e que iriam ficar sem ter o que ou onde comer. Tudo ia fechar”, relata o ex ambulante.

A falta de recurso financeiro, o aluguel atrasado e as multas devido a falta de pagamento de luz e água não foram suficientes para impedir Adenilson, que se afirma cristão, de ajudar os desamparados, mesmo que para isso, ele tivesse que usar o pouco que ainda tinha. “É isso que me mantém em pé, vivo! A luz já foi cortada três vezes, mas Deus colocou essa missão no meu coração e eu venho cumprindo”, conta o desempregado que, hoje, distribui cerca de 350 marmitas em pontos diferentes da Capital. Todas feitas a partir de doações de pessoas que foram inspiradas pela sua trajetória.

“No início, os pneus do meu carro estavam todos carecas, mas graças a Deus apareceram pessoas que me ajudaram a trocá-los. Apareceu também o seu Gilmar, ele é uma pessoa que me ajuda muito”, relata com satisfação, o “Irmão”. O ‘Seu Gilmar’, a quem Adenilson se refere, é Gilmar Pereira, proprietário de uma Rede de supermercados em Brasília. “Sempre me preocupei com os que não têm o que comer. Entendi que o Adenilson faria o que não posso fazer, ir até essas pessoas. Me sinto bem o ajudando a ajudar”, relata o empresário.

Adenilson Cruz, o irmão. Ele vende e doa quentinhas. Fotos : arquivo pessoal

Para Adenilson, a importância da sua “obra”, é fortalecida quando ele vê o quão escasso é o amor ao próximo nos tempos de hoje. “Brasília é um lugar com tanta gente que tem condições de ajudar os outros, mas não fazem nada”, afirma. Ele relembra também, as poucas vezes que viu, durante a pandemia, ações solidárias nas ruas. “Quando aparecia uma igreja, um grupo querendo ajudar, era quinzenal ou semanal. Essas pessoas só comem uma vez por semana? Todos nós comemos todos os dias, por que eles não podem?”, ressalta com indignação.

Considerada mais uma pessoa essencial na concretização do trabalho do “Irmão”, Renato Lúcio Batista o ajuda todos os meses com uma quantia em dinheiro. “Como corretor de imóveis, toda vez que ele sai do cartório, fecha um negócio, ele me transfere um valor. Quando cortaram minha luz, ele veio e pagou a minha conta”, relata Adenilson. De acordo com Renato, sua vontade de contribuir com as doações é fruto da sua admiração pelo ex ambulante. “Ele é uma pessoa honesta, trabalhadora, transparente e tem um coração enorme. Está sempre feliz e sorridente. Só vive para ajudar quem precisa”, conta o corretor de imóveis.

Renato conta ainda que, a aproximação ocorreu após sua esposa, Carol Nasili, reconhecer Adenilson em um programa de TV que mostrava seu trabalho com as marmitas. Ao ver o trabalho do amigo de infância, ela decidiu o procurar para ajudá-lo de alguma forma. “Ela passava as férias na casa de sua avó, em Caconde, no interior de São Paulo, coincidentemente na mesma cidade onde Adenilson foi criado, em um orfanato. Foi então que decidimos procurá-lo”, relembra Renato Batista. O corretor explica que sua contribuição vem de coração e que pretende manter o gesto enquanto for necessário. “Sempre quis ajudar e tenho certeza de que encontrei a pessoa certa para fazer isso”, completa.

Solidariedade aprendida em convento

Criado em um convento dos 3 meses aos 12 anos de idade, o produtor de marmitas diz ter aprendido tudo que sabe sobre solidariedade nesse período. “O que eu faço hoje eu aprendi lá. O local era uma entidade que sobrevivia de doações para manter aquelas crianças”, afirma. Foi justamente por já ter vivido na pele o que é estar em posição de necessidade, que Adenilson faz o que pode para minimizar a dor de pessoas sem nenhuma rede de apoio.

Atualmente, o percurso do “Irmão” se inicia na Praça do Relógio, no centro de Taguatinga. Em seguida, ele distribui as “quentinhas” em pontos como a Praça do DI, também em Taguatinga, na Vila Dimas, próximo à estação do metrô no Pistão Sul, em alguns pontos em Ceilândia Norte, na Ponte da Samambaia e no Recanto das Emas. “Hoje as pessoas só julgam e não querem ajudar. Intitulam moradores de rua de vagabundos, sem nem saberem suas histórias”, aponta Adenilson. “São poucas as pessoas que realmente tem o coração voltado ao cuidado com o próximo”, completa.

Divulgação

É através de uma extensa rede de colaboradores atraídos pela sua história, que Adenilson consegue os recursos para a produção das “quentinhas” que prepara todos os dias. A mobilização acontece, basicamente, pelas redes sociais, principalmente pelo Whatsapp. É por lá que ele direciona suas mensagens em grupos contendo, mais ou menos, 1.200 pessoas.

A partir desse contato, as doações chegam em forma de dinheiro ou mantimentos. “O conheci em uma igreja há cinco anos, foi quando me procurou para contribuir em uma ação que estaria realizando.

Ajudei com alguns fardos de feijão, agora no início da pandemia, ele me procurou novamente e me prontifiquei a ajudar”, relata Gilmar Pereira. “No que ele precisar, seja alimento, combustível, manutenção, eu vou ajudar”, finaliza o empresário.

Hoje, o maior sonho do “Irmão” é conseguir fazer mais. Para ele, para que essas pessoas saiam das condições de miséria, elas precisam, acima de tudo, serem vistas como seres humanos. “Elas são vistas como escória da sociedade e isso não às ajudam”, enfatiza Adenilson.

Saiba Mais

“Sonho em dar início a um Instituto, conseguir caminhos de angariar fundos para ajudar mais essas pessoas”, expõe, afirmando que, seu objetivo é conseguir tirar as pessoas da rua e ensiná-las um ofício.

“Meu plano de serviço é registrar o Instituto, fazer uma cozinha grande, resgatar as pessoas de rua e ensiná-las a cozinhar, a fazer bolo”, completa.

Ele conta que pretende fazer isso juntamente com uma empresária do ramo de confeitaria, que já manifestou interesse em ajudar.

Para ajudar o projeto a seguir em frente, Adenilson criou uma vaquinha online que pode ser acessada pelo link https://www.vakinha.com.br/vaquinha/i-a-c-o-amor-alimentando-a-esperanca

 

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