Cenários das eleições 2020 apontam para resultados sem partido hegemônico

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A duas semanas do pleito municipal, analistas políticos sugerem um resultado pulverizado, sem a vitória de um partido hegemônico na preferência dos eleitores. Nos maiores colégios eleitorais, candidatos apoiados pelo Planalto enfrentam baixa adesão popular

 

 

A duas semanas do primeiro turno das eleições municipais, o cenário que se apresenta é de um resultado que deve ser fragmentado, sem um partido ou figura como grande vencedor, e com a ausência de prefeitos nas capitais que sejam aliados do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Em São Paulo e Porto Alegre, por exemplo, as intenções de voto mostram que a oposição ao presidente tem lugar garantido. Bolsonaro repetiu, antes e durante a campanha, que se manteria fora do pleito — em uma estratégia até para evitar desgastes em caso de derrota. Mas, nos últimos dias, declarou apoio a candidatos como o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos).

Entre os analistas, cresce o consenso de que Bolsonaro sairá sem prefeitos aliados nas grandes cidades. Se, na eleição de 2018, o PSL saltou de partido nanico para a segunda maior bancada na Câmara, desta vez o cenário é bem diferente. Sem uma legenda, o presidente téra influência limitada nas disputas municipais. “Vai ficar a ver navios. Ele não vai ter apoio nas capitais”, afirma Melillo Dinis, analista político do portal Inteligência Política.

No Rio, por exemplo, Crivella está em segundo e Eduardo Paes (DEM), em primeiro. Bolsonaro pediu voto a Crivella na última semana, mas falou ao eleitor que “se não quiser votar nele, fique tranquilo”. Na mesma transmissão ao vivo, evitou criticar Paes e o chamou de “bom administrador”. Crivella, como se sabe, já teria mesmo uma eleição difícil, por causa da alta rejeição que enfrenta na capital carioca. Não haveria razão, portanto, para o chefe do Executivo aumentar a exposição em apoio a um candidato com tantos problemas. Crivella ainda pode ser atropelado pela candidata do PDT, a delegada Martha Rocha, e ficar fora do segundo turno.

Em São Paulo, o presidente fez o mesmo movimento: disse que não entraria na campanha, mas elogiou Celso Russomanno (Republicanos), declarando apoio a ele. Não deu certo, e o candidato, que está em segundo, continua caindo nas pesquisas. Ainda assim, Russomanno publicou na última sexta (30) uma foto ao lado do presidente. Entretanto, o candidato tem encolhido rapidamente na preferência do eleitor paulistano.

Professor de Direito da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ) e cientista político, Michael Mohallem afirma que é possível observar uma dificuldade do bolsonarismo nas capitais, como Rio, São Paulo e Porto Alegre. Mohallem ressalta que o próprio presidente informou que não iria se envolver, e que já se vislumbravam cenários sem a presença dos candidatos alinhados ao Planalto nas capitais.

Fragmentação

O cientista político aponta a fragmentação da candidaturas neste ano, com o fim das coligações, e que já é difícil imaginar um cenário hegemônico quando se pensa nas legendas vitoriosas. Além disso, ele frisa a existência de um rearranjo da política nacional, pois o PSL se tornou um partido forte após 2018, mas foi abandonado por Bolsonaro. “Poderia ser o partido do presidente, mas ele saiu. Hoje, o bolsonarismo está disperso entre aliados esporádicos”, diz.

No âmbito da esquerda, também é possível perceber um rearranjo, com o enfraquecimento maior do PT, que já sofreu uma queda brusca em 2016, ainda que tenha conseguido eleger a segunda maior bancada na Câmara em 2018. Para ele, inclusive, as legendas de esquerda estão buscando se alinhar, como pôde ser visto no encontro do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) na última semana (leia mais a respeito na página 4). Segundo o professor, é possível que essas legendas se apoiem no segundo turno.

Cientista político e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Ricardo Ismael também espera uma diversidade de partidos nas prefeituras. “Acho difícil que tenha uma legenda que diga que venceu as eleições”, afirma. Para ele, a onda de 2018, que elegeu Bolsonaro e arrastou deputados, senadores e governadores, não está presente nesse pleito. O professor frisa que, nestas eleições, os eleitores tendem a se concentrar em questões locais, dando menos atenção a grandes temas políticos, como o combate à corrupção e a ascensão do conservadorismo no país.

Hipóteses

Nesse cenário fragmentado, especialistas lançam hipóteses sobre a relação entre o bolsonarismo e as eleições municipais. Doutor em direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Marcelo Peregrino remete a popularidade da oposição nas capitais a um provável “desencanto” com as atuações do governo federal. “O bolsonarismo perdeu um pouco do seu encanto e da sua pureza ao ser obrigado a conviver com a política: práticas daquilo que até então condenava, a aproximação com o Centrão, a perda da referência do ministro Sergio Moro no governo. Portanto, insatisfações são muitas em um ambiente de, ainda, muita polarização. Mas, isso tem se diluído e esses candidatos que se mantêm polarizados têm perdido popularidade”, explica.

Peregrino aponta, ainda, para o fato de o presidente não estar engajado nas eleições municipais, diferentemente das lideranças de esquerda. Professor da Escola de Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Augusto de Oliveira também frisa que “a dinâmica nacional pode não ser tão impactante nas urnas municipais”, já que as estratégias dos candidatos podem variar. “Para alguns, pode ser vantajoso se associar ao presidente, outros não veem esse movimento como algo positivo”, explica.

Oliveira analisa, também, a possível relação com o perfil dos eleitores nas capitais. “O eleitor que aumentou a popularidade e o apoio do Bolsonaro, aparentemente, não está nas capitais. Então, é preciso entender esse movimento. Será que nesse perfil de cidadão que mora na capital, mais urbano, mais escolarizado e com renda um pouco superior, é o perfil que votou no presidente no primeiro turno, mas que mostrou redução em sua popularidade no seu município? Isso é um fato a ser levado em consideração”, observa.

O professor Marcelo Peregrino avalia que, em um cenário fragmentado, rostos conhecidos da política estão em vantagem. “Acho difícil que tenhamos novas personalidades. A renovação este ano será mínima, teremos pessoas já conhecidas concorrendo a novos cargos, como é o caso da Manuela (d’Ávila, do PCdoB) em Porto Alegre”, opina. Segundo o professor, o mesmo movimento acontece em Florianópolis, com o atual prefeito Gean Loureiro (DEM), que busca a reeleição e está em primeiro nas pesquisas.

O analista político Melillo Dinis, por sua vez, vê o crescimento de “caciques” e de candidatos ligados a clãs políticos. É o que ocorre no Recife, onde o deputado federal João Campos (PSB), filho do ex-governador Eduardo Campos, está em primeiro lugar na corrida para a prefeitura. Em segundo lugar na disputa vem Marília Arraes (PT), prima de Campos. “Parece-me que não vai haver a hegemonia de nenhum partido. Veremos o aumento da fragmentação partidária e o fortalecimento desses velhos personagens da política brasileira”, avalia Dinis.

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