Brasil tem ao menos 29 candidatos que disputaram todas as eleições desde 2000

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17 se elegeram pelo menos uma vez

11 conseguiram vagas de suplente

Levy Fidelix não ganhou nenhuma

 

Levantamento com mais de 2 milhões de CPFs mostra que 29 dos atuais candidatos nas eleições de 2020 concorreram em todas as disputas eleitorais brasileiras desde 2000. São 11 pleitos consecutivos. A cada 2 anos, essas pessoas se inscrevem no sistema do TSE e tentam conquistar uma vaga, nas disputas municipais ou gerais.

Para o cientista político e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Sérgio Praça, essas pessoas podem ser rotuladas como candidatos profissionais.

Entre os 29 candidatos, 17 conquistaram pelo menos uma vez o cargo pelo qual concorriam. Outros 11 ficaram de suplentes. Apenas 1 nunca foi eleito: o presidente do PRTB, Levy Fidelix.

Mineiro de 68 anos, Levy Fidelix se candidata desde 1986 e carrega 16 pleitos nas costas. Nunca ganhou. Apesar disso, afirmou: “É a 1ª eleição que disputo na minha vida”. A frase faz referência às peculiaridades da eleição deste ano, que é realizada durante a pandemia, o que resulta em maior importância da internet. “As outras não eram eleições, você já entrava [perdendo por] 10 a 0″, disse.

O presidente do PRTB já se candidatou a quase todos os cargos eletivos, menos para senador. Agora, concorre à Prefeitura de São Paulo e conta com o apoio do vice-presidente Hamilton Mourão, cabo eleitoral do partido. “A chance de ganhar é bem maior”, aponta sobre a relevância da internet e o apoio de Mourão.

O cenário, no entanto, não é promissor. Na última pesquisa Ibope, feita de 30 de setembro a 1º de outubro, o mineiro aparece com 1% das intenções de voto. A margem de erro é de 3 pontos percentuais.

Fotos usadas por Levy Fidelix para disputar as eleiçõesDivulgação/TSE

Fidelix não pretende parar de se candidatar. “Havendo a oportunidade, nós estamos colocando o nosso nome”, declarou.

Para o cientista político Sérgio Praça, Fidelix faz parte do grupo de pessoas “que consegue viver do jogo político ou que tem outras rendas” para conseguir ser sempre candidato mesmo sem vencer.

O presidente do PRTB declara, no sistema do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ter R$ 954.597,41 em bens. Diz ser empresário e não receber renda do partido. Fidelix é sócio das empresas Levy Fidelix Consultoria em Comunicação e Tecnologia Internacional Eireli e Ufbras – Utsch e Fidelix Mineração e Logística S/A. No site do TSE, também define-se como jornalista e redator.

Sérgio Praça afirma que alguns políticos podem usar a estrutura partidária para se manter financeiramente. “E tudo dentro da lei”, disse. “O financiamento público de partidos e candidaturas é bem generoso“, afirma. Ele diz que é possível que esse seja o caso de Fidelix. “Ele, de fato, domina o partido“.

O político fundou o PRTB, em 1994. Saiu candidato em todas as eleições de lá para cá. Antes disso, também disputou o cargo de deputado estadual por São Paulo em 1986.

Das 29 pessoas que se candidatam desde 2000, 6 permaneceram na mesma legenda durante esses 20 anos –entre elas, Fidelix. O cargo mais alto alcançado por alguém da legenda é justamente o do general Hamilton Mourão, vice-presidente da República.

ITINERANTE

Entre os profissionais, também há quem mude constantemente de partido. É o caso do candidato a vereador do Patriota em Teresina (PI) Joaquim Saraiva. Nos últimos 20 anos, ele já passou por 8 legendas: DC, DEM, Patriota, PR, Prona, PSB, PT do B e PTB.

Praça diz que o Brasil tem algumas características que facilitam e, até, incentivam que pessoas se candidatem em muitos pleitos. Um desses fatores é a grande quantidade de partidos. “Se você sente que no partido atual você não vai ser candidato, você muda de partido“, lembra.

Ele também afirmou que se candidatar em muitas eleições, pode ser melhor para o político do que ficar sem mandato. “O mandato é crucial para 1 político“, declarou. Disputar eleições também é uma forma de ficar em evidência, segundo ele.

O ideal é que todo mundo termine o mandato pelo qual foi eleito“, disse. Mas afirma que o jogo político no Brasil é complicado. “Na carreira política sempre vai fazer sentido pensar no próximo cargo, pensar no cargo mais alto que você pode disputar“, declarou.

Eis 1 infográfico no qual é possível verificar as 29 pessoas que se candidataram em todas as eleições desde 2.000, os cargos e os partidos em que estavam em cada período:

O vereador de Niterói (RJ) Paulo Eduardo Gomes (Psol) diz que nunca se imaginou como político ou fazer disso uma profissão. Mesmo assim, esta é a 15ª eleição que disputa.

O vereador tem se candidatado consecutivamente desde 1994. Ele diz ser militante político. Afirma que se candidata para cumprir o papel partidário. “Vocês devem achar que eu sou 1 louco”, afirmou sobre a quantidade de pleitos que já concorreu. “Eu fui obrigado pelas circunstâncias a ser candidato”, lembra.

Neste ano, ele concorre novamente a uma cadeira na Câmara Municipal de Niterói, onde ocupa o cargo de vereador desde 2012. Paulo Eduardo já se elegeu 4 vezes –todas como vereador. Nunca conquistou uma vaga no Legislativo nacional, a qual afirmou que teria mais perfil. Ele é engenheiro e foi trabalhador da Embratel. “Interromper uma carreira de engenheiro só me trouxe prejuízo material”, declara. “Eu não sou alguém que quer ser vereador para ganhar dinheiro”.

nova regra eleitoral que pôs fim às coligações proporcionais é 1 exemplo de situação que fez os partidos recorrerem aos seus filiados em busca de candidaturas. A regulamentação resultou em 1 aumento de 8,75% no número de candidaturas para as eleições municipais de 2020. A resolução determina que candidatos a vereadores só podem participar do pleito em chapa única, sem o apoio de outras siglas. Isso forçou as legendas a lançar mais candidaturas.

Paulo Eduardo diz que as disputas eleitorais seguidas podem passar a sensação de que ele não tem nada para fazer. Contudo, afirmou que a vida política nem sempre é positiva. Menciona a distância dos netos como 1 exemplo.

Para a candidata do PSDB à Prefeitura de Vitória (ES), Neuzinha de Oliveira, disputar várias eleições seguidas é algo normal e uma oportunidade de entender como funcionam os diferentes pleitos. “Você não pode participar só porque você acha que vai ganhar”, disse. Ela também diz que se candidatar é uma forma de se aproximar das executivas dos partidos.

O pleito deste ano é o 11º consecutivo que Neuzinha disputa. Ela está no 5º mandato seguido de vereadora. Ganhou todas as eleições municipais que disputou, sempre como vereadora. Mesmo assim, não deixou de se candidatar para eleições gerais.

Eu nunca interrompi 1 mandato, todos os mandatos de vereadora eu cumpri”, afirmou a atual candidata a prefeita. Ela já concorreu 4 vezes à vaga de candidata estadual e uma vez a deputada federal. “É lógico que se eu ganhasse para deputada naquele momento depois de 4 mandatos de vereadora, seria natural eu assumir como deputada”, disse.

METODOLOGIA

Cruzamos os números de CPF dos 549 mil candidatos atuais com todos os que participaram de eleições municipais e gerais desde 2000. Os registros atuais de candidatura do TSE ainda passam por atualização e podem aumentar nos próximos dias.

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