Artistas e coletivos culturais buscam se reinventar diante da pandemia

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Com a impossibilidade de ocupação do principal palco da arte urbana, a rua, artistas e coletivos buscam alternativas para os desafios do novo normal

 

 

A arte urbana é uma forma democrática de produção e acesso cultural, em que as ações ocorrem pela ocupação de espaços públicos e, por conta disso, dialogam diretamente com as pessoas que habitam e/ou circulam nas cidades. Entretanto, a pandemia e a necessidade do isolamento social esvaziou significativamente as ruas, e trouxe um grande desafio para grupos que têm a cidade como espaço cultural e local de trabalho: dar continuidade às atividades, que são essencialmente encontros interativos entre artistas, público e a cidade.
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A Rede Urbana de Ações Socioculturais (Ruas), por exemplo, é uma janela aberta para os projetos de arte e cultura urbana da periferia. Durante esse período, tem desenvolvido medidas para fortalecer a rede de apoio e munir projetos, profissionais e comunidades para o enfrentamento da crise. Para isso, implementou-se o Fundo de Apoio às Periferias do DF, além da continuidade e fomento do Laboratório de Empreendimentos Criativos, o LECria.
“Estamos focando em reestruturar o projeto, tendo em vista o novo normal, com o apoio às famílias que já estão conosco e avaliando quais são os nossos limites e possibilidades”, explica Max Maciel, coordenador pedagógico da Ruas. “A cultura urbana está atônita, pois ela precisa intrinsecamente da rua, uma vez que a interação e a ocupação do espaço público sempre foi algo que defendemos. O grafite precisa do muro, o break precisa do chão, o DJ precisa do público, o rap precisa de seu palco e das pessoas”, contextualiza.
Ele destaca a importância do aprendizado e inclusão de novos ambientes de conexão, como um meio de adaptação ao momento. “Estamos analisando a questão do streaming, como podemos gerar conteúdo e ter uma fonte de renda com ele. Nossa classe cultural está tentando sobreviver, com editais e apoios, mas também com a busca pelo aprendizado, conhecimento e adaptação. Tudo para manter o nosso grito e representatividade, e que possamos sair fortalecidos”, destaca Max.

Grafite

“O grafite é o grito no silêncio dos muros”, como cita Max Maciel. É a expressão, da arte e de temas relativos à periferia e a realidade, exposta em uma galeria aberta. Os artistas do grafite também começaram a pautar as cidades com temas que emergem na pandemia, e levaram esses trabalhos ao público isolado, por meio do espaço virtual, como redes sociais.
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“O Instagram do Comitê (Permanente) do Grafite nasceu com a pandemia, no intuito de criar possibilidades de economia criativa e arte no DF e entorno. Criamos o 1º Festival do Grafite em Casa, onde os artistas puderam expor sua arte por meio de apresentações ao vivo”, conta Danilo Rebouças, servidor da Secretaria de Cultura e membro titular do Comitê do Grafite. No perfil da rede social, @comitedografitedf, são expostos trabalhos e artistas de Brasília, Brasil e de outros países.
A busca de recursos também é uma questão para os grafiteiros que vivem da arte e que enfrentam a crise da pandemia. “O fomento vem de projetos dentro do Conecta Cultura, ações da Secretaria de Cultura do DF, por meio de editais, como FAC on-line, FAC premiação Brasília 60 anos, e FAC regionalizado. Além disso, estamos em planejamento para o 4° Encontro do Graffiti”, cita Danilo.
Alguns artistas estão fazendo transmissão nas redes sociais para se reaproximar do público, que normalmente transita pela cidade. “Há, inclusive, a aproximação da linguagem com o grande público por meio das lives. Satão, Nabrisa, 061 e outros grafiteiras e grafiteiros estão retratando a realidade e a luta contra a covid-19, muitas vezes com humor, outras vezes, com tons bem dramáticos”, conta Danilo.

Batalhas de Rap

Da arquibancada do Teatro de Arena da UnB às redes sociais, o grupo Batalha da Escada (BDE), que se reunia ali toda quarta-feira, às 18h, se reestruturou com um projeto chamado Escada de casa, com lives pelo Instagram e YouTube, debatendo e refletindo sobre temas variados como saúde, políticas públicas, hip-hop, feminismo, movimento negro, arte e cultura, desigualdades sociais e principalmente a manutenção do debate e do pensamento crítico, típicos do Rap.
“A BDE nunca foi apenas a expressão da arte por si só, ela abrange várias pautas ligadas não só ao hip-hop, mas às vivências que se colocam ali naquele território. Infelizmente estamos sem poder nos aglomerar, mas isso não significa que não podemos entrar em contato uns com os outros e tentar manter este debate em movimento e gerar reflexões sobre os impactos do momento. Até que a gente consiga, quem sabe, realizar uma batalha virtual sem prejuízo algum ao projeto, invés de batalhas de MC’s presenciais, oferecemos conversas virtuais”, explica Raphael Steigleder, coordenador geral do coletivo da BDE. O grupo, que em 2020, completa cinco anos de existência, está adaptando o planejamento de comemoração para o virtual, que se configura como um espaço público alternativo para esse momento.
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