Profissionais do cinema do DF evidenciam situação na pandemia

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Dívidas, falta de financiamento, descaso governamental: sem condições de trabalho, profissionais do setor audiovisual enfrentam momento calamitoso

 

 

Num momento de crise, o fortalecimento pela união de profissionais que trabalhem em prol do cinema dá relativo ânimo para o produtor Marcus Ligocki, imbuído da utopia de “presentear o mundo com a criatividade audiovisual que brota da diversidade da população brasileira”. O esforço persiste, na atual circunstância em que os desafios se acumulam: o produtor não vê perspectiva para o lançamento de dois filmes prontos (dadas as salas fechadas) e nem para suporte financeiro de novas filmagens. Uma vez que o isolamento reforçou uma introspecção própria do trabalho artístico de Ligocki, ele realinhou o pensamento para vencer desafios abundantes.

Numa das frentes, o cineasta e produtor apostou no mercado do Festival de Cannes, tornado on-line, em proposta mais acessível. “Assisti a conferências e contatei produtores do mundo todo. Diante das incertezas futuras, me obriguei a pesquisar novas formatações de projetos de exibição e financiamento. Talvez a pandemia catalise inovações relevantes para o cinema”, observa o criador do longa Uma loucura de mulher.
Readequação à nova era faz parte de meta para o preparador de elenco José de Campos, no mercado há 10 anos. Entre os trabalhos, ele foi assistente no longa O outro lado do paraíso, com dicas diretas para Eduardo Moscovis e Camila Márdila. Se antes da pandemia era possível estar encerrado numa sala com os atores para o desenvolvimento de personagens, agora, esta etapa de criação física e emocional está provisoriamente vetada.
“Estreitamos a mobilização de colegas (preparadores de elenco) em redes sociais. A fase mais intelectual do processo, de leitura de mesa com discussão de conceitos de filmes se mostra possível”, explica José de Campos. Acolhendo a ideia de um retorno aos set “sem precipitação”, recentemente ele azeitou o potencial de atores inscritos em editais para obras on-line. Tudo feito sem imediato retorno financeiro. “Enfrenta-se o vírus e o próprio governo, que encaminha à percepção de que cultura seja pouco importante”, desabafa.

Inseguranças

José de Campos e Marcus Ligocki integram uma legião de profissionais do audiovisual do DF que trilham um caminho inseguro. Ligocki potencializa discurso que ecoa entre a classe artística: “Dois anos de paralisação da Ancine (Agência Nacional do Cinema) e do Fundo Setorial do Audiovisual (que viabiliza criação de filmes), além da suspensão da Lei do Audiovisual, surtem o resultado: milhares e milhares de pessoas sem trabalho. A criação artística no Brasil está se tornando um verdadeiro milagre”, sublinha.
Diretor de fotografia de filmes como O romance do vaqueiro voador, Waldir de Pina, aos 69 anos, vê projetos em que estava engajado, agora, “completamente incertos”. Por hora, ele se dedica a um canal no YouTube, Boneco Brasileiro, para seguir batalhando. “O momento para o audiovisual é terrível, horroroso: o governo federal persegue sistematicamente o setor. Há um desgaste com o desmonte da estrutura de cultura que tem sido muito agredida. No âmbito do governo local, não há o mesmo terrorismo — mas, a rigor, não se está agindo: há ações muito pequenas e um recolhimento: as coisas estão paradas”, observa.
O Correio ouviu profissionais de áreas diversas, dentro do audiovisual que opinaram em torno das atuais condições de subsistência da arte. O cenário é calamitoso: falta plano estratégico de longo prazo, pontes financeiras que estimulem recursos para o setor estão minadas e há carência de segurança no fomento e na difusão de cinema. “Agora, diante da absoluta insensibilidade do governo federal, potencializada pela pandemia, o setor audiovisual chegou a ter o Festival de Cinema mais tradicional do país cancelado por um dia (situação revertida) e corremos o sério risco de um segundo ano consecutivo sem o edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC)”, demarca Marcus Ligocki.
 
Palavra de especialista
Victor Hugo Leite*
(foto: Sheyden/ Divulgação)
(foto: Sheyden/ Divulgação)
“Os desafios de manutenção do setor audiovisual se aprofundam progressivamente. Mesmo antes do cenário da pandemia, enfrentamos uma escassez de políticas públicas culturais que amparem o setor. A derrocada estrutural é configurada nos contextos local e federal. A situação do audiovisual brasileiro e do DF é emergencial: cabe lembrar que estamos lidando com a parada crítica de um setor da economia criativa que mobiliza e emprega diversos profissionais, não apenas cineastas. As políticas afirmativas para negros e negras no audiovisual caminham ainda de forma tímida e são conquistas advindas de muito engajamento, fortalecido por organizações como a APAN (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro) que visa promover equidade racial e de gênero para profissionais negros no audiovisual nos diálogos com o mercado e o estado”.
* Victor Hugo Leite, produtor cultural e conselheiro regional da APAN
O que dizem profissionais do setor
(foto: Ana Carolina Matias/ Divulgação)
(foto: Ana Carolina Matias/ Divulgação)
Dácia Ibiapina
“É um tempo desafiador e complexo, para quem tem mais de 60 anos. O trabalho está cada vez mais difícil. O fomento do audiovisual amarga a falta de editais; a Ancine e o Fundo Setorial, parados. Daí o cinema andar caótico”, avalia a professora aposentada da UnB Dácia Ibiapina, que chegou na capital há 27 anos. Com um filme totalmente pronto (o documentário Cadê Edson?), Dácia viu o longa de denúncia contra a desmobilização de grupos minoritários que lutam por moradias selecionado para a Mostra Tiradentes e para o festival inglês de Sheffield. “Nas novas condições, a exibição e os debates tendem a ser on-line: tenho me adaptado a novos formatos. Gosto de ver gente, de trabalhar em campo, nas minhas pesquisas como a que tenho desenvolvido e que é ligada aos quilombolas”, explica a cineasta e professora.
Homenageada pelo festival Rastro (a ser encerrado hoje, na internet), Dácia, sem produtor ou secretários, tem administrado sozinha formulários, lives e participações eventos como o mineiro Lona, vinculado às periferias. Participante da Mostra Brasília, desde os anos 90, numa adesão firme ao Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Dácia segue na militância, quando o evento (recentemente ameaçado) se formata. “Brasília não pode ter indivíduos vistos como cabeça, tronco e rodas (a máxima excludente da massa desprovida de carros). O festival não pode se limitar ao Plano Piloto (previsto para o Drive-in): é um espaço de formação, socialização e de encontros”, defende.
» Daniela Marinho  
Produtora de cinema há 14 anos, Daniela Marinho é presidente da Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo (ABCV) e diretora da regional Centro-Oeste da Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual (API). Atenta para aspectos econômicos e sociais, percebe que intuitos solidários de grandes empresas não têm contemplado profissionais do audiovisual. “Há várias empresas do ramo fechando. Existia um movimento de descentralização da produção audiovisual; algo gradual. Mas as vozes periféricas têm sido abandonadas”, comenta. Se, no âmbito federal, Daniela percebe que a Ancine que não tem políticas públicas, ela nota que a pandemia intensifica o cenário de descaso. Diante disso, investe no fortalecimento de articulações entre colegas.
“Perdemos contratos, trabalho e renda. Não quero ver tudo desmantelar tendo a sensação de não ter lutado. Pela forte tensão do momento — há quem não tenha o que comer, amanhã —, apostamos num acompanhamento, com orientações, para adesão de colegas mais fragilizados no FAC Prêmios. Os técnicos de cinema são os mais impactados, e, sem eles, que são qualificados, não há filmagens. Fizemos campanha, na rede, por eles”, conta. No campo pessoal, depois das perspectivas internacionais nos Festivais de Sundance e Biarritz (com o filme de Rafaela Camelo O mistério da carne), Daniela, formada pela UnB, teme ruptura da carreira, por tantos investimentos drasticamente limitados.
» Marcos Manna 
Técnico de som direto para cinema, há 16 anos, Marcos Manna acredita que haja mínima parcela de colegas ativos na etapa de pós-produção (a fase de finalização dos filmes, com montagem, edição de som e colorização). “Com a pandemia, não vejo nada de positivo: tudo está parado. A etapa das filmagens é a mais afetada. Não há como trabalhar. No passado, cheguei a filmar cenas com 300 figurantes. Imagina a aglomeração!”, pontua.
Profissional por trás das câmeras em longas como A repartição do tempo e O último Cine Drive-in, Manna esteve em set de filmagens, há meses, com os longas inéditos Tia Virgínia (de Fábio Meira) e Deserto particular (de Aly Muritiba). Novas incursões no cinema ficam pendentes. “A covid-19 atrapalha em tudo. Há protocolos que estão em fase de teste, para o retorno. Nossos equipamentos, sempre higienizados, passarão pelo processo muito mais vezes por dia. Imagina a circunstância crítica se, em filmagens, sempre vivemos na correria. Isso sem garantia completa de proteção e numa conjuntura em que, testes da equipe, encarecerão gastos”, explica.
Afora os perrengues com gravadores, microfones aéreos e de lapela, Marcos Manna alerta para a falta de editais para o audiovisual. “O governo federal travou, há um ano e meio, a classe. Nada na Ancine anda”, reforça. Sem o auxílio de R$ 600, ele diz que recebeu apoio da Netflix, que acolhia um projeto local que ficou estagnado com a nova realidade.
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