Após processo de inserção social, jovens ganham carteira assinada

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Adolescentes concluíram curso de panificação e foram surpreendidos após a formatura: estão capacitados e empregados

 

 

“Sempre acreditei que poderia resgatar vidas por meio do pão.” As palavras do chef em panificação e confeitaria Ricardo Arriel, 34 anos, representam bem o que nove jovens, de 17 a 20 anos, viveram na tarde desta quinta-feira (19/12) no Recanto das Emas. Eles terminaram um curso de panificação do qual Arriel foi professor voluntário e foram surpreendidos com uma notícia especial na hora da formatura: suas carteiras de trabalho serão assinadas.
Se conseguir o primeiro emprego nessa faixa etária é um desafio por si só — dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, dos 18 aos 24 anos, a taxa de desemprego é de 26,6% —, a oportunidade dada à turma é o primeiro passo para um sonho: entre os novos panificadores estão rapazes que cumprem medidas socioeducativas, outros que já moraram na rua e ainda algumas jovens mães. Antonia, Carlos, Ester, Genildo, Jefferson, Jéssica, Laurimiro, Lucas e Matheus entram agora em uma nova fase, que dá início a uma série de possibilidades.
“Nem a gente imaginava que o resultado seria tão bom. Gosto de brincar que a fabricação de um pão é um processo mágico, em que a gente joga farinha, o pão surge e parece mágica. É o que aconteceu com eles”, compara Katia Ferreira, 49, diretora do Instituto Proeza, que recebeu os jovens durante três semanas para as aulas de formação. A também fundadora da organização não governamental (ONG) destaca a importância em se oferecer oportunidades para jovens que tiveram poucas opções. “A vida não vai ser tão florida para todos. Para alguns, vai ser mais espinhosa. Por isso, é importante ter essa rede de apoio, como a que estamos fazendo aqui”, afirma.

Sonho realizado

Matheus Barboza, 17, é um dos jovens que conseguiram uma nova colocação. Emancipado desde os 16, ele atuava como um balconista sem vínculos trabalhistas em uma panificadora do Recanto das Emas. Agora, será ajudante de padeiro em uma grande pizzaria, com carteira assinada. A oportunidade em um emprego formal significa muito para o rapaz, que passou um período da vida em situação de rua e que, atualmente, sustenta a esposa e a filha de 10 meses. “Sempre quis essa chance e agora apareceu para mim. Vai mudar muito não ter o dinheiro contado só para pagar o aluguel”, comemora. “Eu já procurava um curso como esse, mas era muito caro, e não consegui fazer. Creio que, se toda unidade de atendimento tivesse um curso assim, mudaria a vida de muitas pessoas. Hoje eu estou muito feliz, e é um dia muito bom para nós”, completa.
Jefferson Alves, 20, relata que a turma aprendeu a fazer diferentes tipos de pães, como francês, baguete e de hambúrguer, além de opções doces, como os panetones. Mesmo tendo percorrido um trajeto de quase três horas para chegar às aulas dadas às terças e quintas-feiras, a experiência foi recompensadora. “Valeu a pena suar e acordar cedo para vir. Eu levantava às 5h30 para chegar às 8h30. Foi bom demais, e aprendi várias coisas”, declara. O jovem, que mora no Paranoá Parque, destaca que, graças ao curso, terá novas oportunidades na empresa em que atua e que não teria imaginado isso antes de ter feito as aulas de cozinha. “Por enquanto, estou trabalhando na copa, lavando louça, entregando taças e fazendo sucos. Vou fazer um teste na pizzaria, depois, na padaria. São três etapas. E, se eu crescer na empresa, também vão me mudar de lugar”, explica.
A nova perspectiva alcançada por meio do aprendizado com o forno vai de acordo com o pensamento do chef Ricardo Arriel, que defende uma atividade “palpável” para trabalhar outras questões de desenvolvimento com os participantes. “O que esses jovens mais querem é ser ouvidos. Todos chegaram introspectivos, os que cumprem medidas chegaram para completar as horas. E aí entra a questão do diálogo. Ao longo do curso, vai sendo ensinado, e a panificação consegue envolver e fascinar na execução do pão. É obrigado a ter paciência, disciplina e conhecimento”, diz.
Katia Ferreira, por sua vez, aponta que, normalmente, há preconceito para a inserção de jovens que cometeram algum erro ou tiveram mais dificuldades. Por isso, para ela, há necessidade de se criar espaços para desenvolvimento. “Tudo é para uma oportunidade de recomeço. Todo mundo está sujeito a erros, mas tem que saber que eu não sou o meu erro. Eu sou o que eu quero ser e o que eu posso ser. Todo mundo tem algum grande arrependimento, e errar faz parte da experiência da vida. Trabalhando nisso, no mínimo, não se vai cometer o mesmo erro de novo.”
No fim da cerimônia de formatura, os alunos distribuíram pães e panetones produzidos por eles durante o curso. A entrega foi feita a famílias carentes do Recanto das Emas.
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