Aumento do apoio às privatizações é mais significativo do que parece

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Número de brasileiros que consideram enviar empresas estatais à iniciativa privada é maior do que há 18 anos, no apogeu do apagão federal

 

“Irmão, tu não tava em casa”, diz o funcionário dos Correios imortalizado em meu favorito meme de WhatsApp. É engraçado porque parece errado, esquisito — algum tipo de “violação” — e, ao mesmo tempo, aceitável, nada de muito importante — ou seja, algo “benigno”. Uma entrega atrasada pelos Correios, empresa estatal, viola nossa expectativa de bom serviço, mas não é um completo desastre. (Esta definição de humor, chamada de “teoria da violação benigna”, é dos pesquisadores Caleb Warren e Peter McGraw.)

Uma pesquisa recente do Datafolha sobre o gosto do cidadão por privatizações mostra que 33% dos brasileiros topam tornar os Correios uma empresa privada. Nossa ex-presidente Dilma Rousseff (PT) conseguiu a proeza de dizer que “querem transformar os Correios em uma grande Amazon”. Quem dera! A Amazon privatizou a entrega de seus livros através de empresas como a Loggi. Nos Estados Unidos, a multinacional sofre severas críticas por não respeitar direitos trabalhistas — mas aqui essa questão parece secundária.

Considerando as empresas estatais como um todo, 25% dos cidadãos consultados têm vontade de privatizá-las. É um aumento de cinco pontos percentuais desde o governo Temer. Parece pouco? Nem tanto. Em 2001, no auge do apagão federal, apenas 22% dos brasileiros consultados pelo Datafolha gostariam de ver as empresas de energia elétrica fora das mãos dos governantes.

Dezoito anos depois, os brasileiros estão enxergando melhor que, para muitos serviços, as empresas estatais não dão conta do mínimo que consumidores esperam. O carteiro do meme está perdendo a graça.

*Sérgio Praça é professor e pesquisador da Escola de Ciências Sociais do FGV CPDOC. Realizou mestrado e doutorado em Ciência Política pela USP e pós-doutorado pela FGV EAESP.  É autor, entre outros, de “Guerra à Corrupção: Lições da Lava Jato” (Ed. Évora, 2017).

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